TEXTO – HISTÓRICO DA REVISÃO TEXTUAL
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
Houve tempo em que os revisores eram pessoas de grande preparo intelectual. Segundo Arezio (1925:10), “as constantes divergências de crenças religiosas e a falsa interpretação dos textos sacros deram lugar a discussões e controvérsias. Daí a necessidade de formarem um corpo de revisão, entre os homens de maior fama intelectual e erudição comprovada, para fazerem a correção ou a revisão dos manuscritos antigos, dando-lhes nova forma, alterando-lhes os períodos, de modo que as subsequentes edições saíssem isentas daqueles senões”.
A instituição da revisão de provas tipográficas provocou à época, na França, a revolta dos copistas, que se insurgiram contra a inovação da reprodução por meio da tipografia. Muito bem relacionados com a nobreza reinante, conseguiram o apoio do parlamento francês, para condenar os impressores (proprietários de tipografias ou editores) e colaboradores à perda dos seus bens. Era mais um momento da história em que a ignorância prevalecia, já que novos métodos eram considerados, com base na religião, obra do demônio. Os impressores, perseguidos, obviamente continuaram a trabalhar, embora na clandestinidade. E os copistas continuaram a copiar os breves e as orações, por seu método primitivo. Mas os erros passaram a frequentes. Os copistas já não atendiam à demanda. Em consequência, a clientela, gradativamente, acabou por procurar outros recursos. Se os copistas, que se julgavam de extrema competência, deixavam passar erros, os impressores também – estes últimos acusados pelos primeiros de adulterar os livros. Assim, dos impressores, quem mais se preocupasse com a revisão adquiria fama pelas edições corretas. Ao se referir aos impressores Ulrich Gering, Martin Krantz e Michel Friburger, que se instalaram na Sorbonne, Arezio (1925: 10) dá conta de que “liam as primeiras provas antes de começar a impressão, para que elas saíssem escoimadas dos erros da caixa ou dos cometidos pelos tipógrafos”.
O desenvolvimento da indústria da impressão tipográfica e a prática de emendar (corrigir), a partir de provas de prelo – de prensa ou rolo –, abriram campo para profissionais encarregados de acompanhar os autores na leitura das provas. Precursores dos atuais revisores de texto, eram eles comumente “os tipógrafos mais inteligentes e mais eruditos”.
Antigamente, os erros das primeiras edições eram corrigidos a pena. Citando o Manual de tipografia, de R. Ogier, de 1832, Arezio (1925: 12-3) informa que, nas obras de Gering, não se usava a errata. “Esta apareceu, pela primeira vez, na edição do Juvenal, impresso em Veneza, por Gabriel Pierres, 1478, e constava de duas páginas.” Duas páginas de errata deixam qualquer revisor em maus lençóis – o escritor Nélson Rodrigues dizia que “o único erro que merece a pena de fuzilamento é o erro de revisão”.
A despeito de os revisores se desdobrarem na correção geralmente difícil e custosa, muitas vezes a atenção é comprometida pelo cansaço, e sempre acaba havendo lugar para a abominável errata ao final.
O escritor cubano Antón Arrufat (De la pequeñas cosas, 1935) faz uma reflexão sobre a “insidiosa errata” e fala da preocupação quase doentia do poeta Baudelaire com os erros tipográficos. Outros mais eram cuidadosos, pois tinham na errata um atestado de incompetência. O impressor Estienne Dolet exaltava tanto a revisão, que pregava suas provas tipográficas na porta da oficina, “dando um prêmio àqueles que nelas descobrissem um pastel”. (AREZIO, 1925:13)
Dolet era poeta, escritor, orador, revisor. Viveu no séc. XVI e foi contemporâneo de Marot e de Rabelais (considerados dois dos maiores escritores franceses na década de 1530). Antes de se projetar, era revisor em Lyon, quando compôs o Pantagruel e o Gargantua. A máxima “andar com bons, para se tornar um deles” funcionou para Dolet. “Do convívio com os homens ilustrados daquela época, Dolet se propôs a revedor de provas da imprensa: dedicou-se à literatura e ganhou nome entre os principais autores franceses”, afirma Arezio.
Apesar de sistemático e exigente, e de oferecer prêmios a quem apontasse falhas em suas obras, Dolet não conseguiu se livrar da abominável errata. Em 1925, Arezio comenta que a obra-prima da arte tipográfica, os Comentários da língua latina (2 v., 1536-1538), de Dolet, com 854 páginas, contou com apenas oito erros de revisão compondo a errata ao fim do segundo volume.
ARISTIDES, Coelho Neto. Além da revisão: critérios para revisão textual. Brasília: Editora SENAC – DF, 2013.
Observe o seguinte período do texto:
“Precursores dos atuais revisores de texto, eram eles comumente ‘os tipógrafos mais inteligentes e mais eruditos’”.
Sobre a construção sintática desse período, considere as seguintes afirmativas e marque apenas o que for correto.
I. A vírgula entre “texto” e “eram” está inadequada, tendo em vista que está separando o sujeito da oração de seu complemento.
II. Funcionando como uma oração especificativa intercalada do sujeito “eles”, o trecho “Precursores dos atuais revisores de texto” está deslocado de sua posição canônica.
III. O trecho “os tipógrafos mais inteligentes e mais eruditos” tem a função de apresentar atributos acerca do sujeito desse período simples por coordenação.
IV. Com função apositiva, portanto, explicar, especificar, o trecho “Precursores dos atuais revisores de texto” inicia o período para enfatizar a qualidade dessa informação.
Estão corretas: