A mulher e o poder
Escrever sobre homens e poder seria de um óbvio ululante. O poder transforma, e nem sempre para melhor. Épreciso saber lidar com ele, para que não nos deforme. A pergunta sobre como as mulheres exercem cargos de mandotem várias respostas, e eu já fiz o teste: desde “estão maravilhosas”, “estão poderosas”, até “andam muito loucas,mandonas demais”. Mulheres são gente: seres humanos, complexos e desvalidos como todos. A vida é que andou secomplicando muito desde que mulheres (tão poucas, ainda!) começaram a assumir algum poder. A velocidade com queas mudanças sociais acontecem hoje é perturbadora e, embora nossos avós também dissessem “Nossa! Como este anopassou rápido!”, hoje nossa vida se transforma em mera correria se a gente não cuidar. [...]
Com o poder acontece o mesmo que ocorre com o tempo: ou o transformamos em nosso bicho de estimação ouele nos devora. [...] Já que mulheres no poder são quase uma novidade, é sobre isso que me interessa refletir aqui. Nãofaz tanto tempo que começamos a assumir funções de ministra, prefeita, governadora, cientista, motorista de táxi eônibus, reitora, e tantas outras. [...] Sendo pioneiras, e sem modelos a seguir, a quem deveríamos recorrer, em quemnos inspirar à frente do país, do ministério, dos empregados da estância, dos colegas lidando com grandes máquinasagrícolas ou à frente de sindicatos? Restava-nos a imagem dos homens.
Algumas pensaram em igualar-se a eles, com jeitos e trejeitos de capataz furioso ou comandante carrancudo, istoé, virando a caricatura de homens poderosos. Pior que eles, por estarem inseguras, sendo prepotentes. Outrastentaram disfarçar esse poder com exageros de sedução: muitas foram educadas para agradar, não para mandar, e oespectro da mulher sozinha existe. De um homem sozinho, dizem que está “aproveitando a vida”, mas da mulhersozinha eventualmente se comenta: “Coitada, ninguém a quis”. E não adianta reclamar: essa é uma realidade burra, umpreconceito idiota, mas não falecido. Com todo esse dilema, corre-se em busca de um “jeito feminino de exercer opoder”. Isso existe? Tem de ser buscado? E o que será, afinal: um jeito delicado, doce ou cor-de-rosa? Que os deusesnos livrem disso. Talvez seja apenas um jeito humano, pois é o que todos somos: cheios de fragilidade e força, dequalidades e defeitos, todos em última análise com medo de não ser atendidos. [...]
O mais positivo pode ser as mulheres, sobre as quais especialmente escrevo, tentarem ser naturais. Nem ir aoposto de comando vestidas de freira ou militar, cheias de convencionalismos, ar gélido e voz de metal, nem sedutoraspor medo de perder a feminilidade (seja lá o que pensam que isso é). Ser apenas uma pessoa a quem o poder foi dadopela sorte, pelo destino, pelo mérito (o melhor de todos), por algum concurso, enfim, pelos caminhos da profissão, etentar fazer isso da melhor forma possível. Para exercer o poder não é preciso nem beleza nem feiúra, nem coisaalguma além de preparo e capacidade, humanidade, ética, honradez, informação, entendimento do outro, respeito pelooutro para que ele também nos respeite. Para homens e mulheres o comando é difícil, é solitário. E, acreditem, exigecuidado: porque, se pode ajudar, pode também contaminar. Nada melhor do que agir com simplicidade, lucidez ealguma bem-humorada autocrítica, em qualquer posto e em qualquer circunstância desta nossa vida.
(LUFT, Lya. Veja, p. 22, 28 jan. 2009.)