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89235 Ano: 2006
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: INPI
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No salão de madame Rambouillet testemunhei a irritação que a peça causara. O mais aborrecido era um abade, de nome Cotin [B], que se tornaria um dos maiores inimigos [A] de Molière, sendo que muitos anos depois o comediante o ridicularizaria especificamente nas Sabichonas [B]. Tive uma discussão séria com aquele abade, que imbecilmente deu a entender que a crítica de Molière só podia ser dirigida à Rambouillet, enquanto os outros, que eram mais inteligentes [C], e para demonstrar que a alusão não podia ser dirigida à sua anfitriã, apenas diziam que Molière, ao escrever aquela peça vulgar, plagiara mais uma vez os italianos que dividiam com ele a sala do Petit-Bourbon.

Eu conheço bem toda a obra de Molière e posso assegurar que essa acusação de plágio, a rigor, só era verdadeira [D] em relação a duas peças que Molière encenou, na província, como se fossem de sua autoria. O Ciúme de Barbouillé e O Médico Voador, copiadas de antigas comédias italianas. O Estouvado foi apenas inspirada em O Descuidado, do italiano Beltrame. Também os cinco atos de Despeito Amoroso não podem ser considerados um plágio, pois Molière apenas usou algumas situações de uma farsa italiana. É comum, no teatro, o autor se inspirar em textos mais antigos, construindo, muitas vezes, uma obra nova, superior em todos os sentidos. Por acaso a Fedra de Racine é um plágio do Hipólito de Eurípedes? E as peças de Corneille têm algum tema original? Mas apenas o meu amigo era chamado de plagiário. Os atores, autores e demais pessoas ligadas aos teatros rivais, devido ao sucesso das Preciosas, quando esperavam mais um fracasso de Molière, iniciaram a difusão desses libelos [E] e intrigas [E], anônimos ou não. A guerra literária em Paris não tinha limites. Para consolar Molière, eu costumava lhe dizer que a inveja era uma forma de elogio e que Montaigne dizia que era melhor ser invejado do que amado. Montaigne nunca disse isso, mas o meu amigo acreditou na mentira.

Rubem Fonseca. O doente Molière. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 58-9 (com adaptações).

Assinale a opção correta com relação ao texto.

 

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