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2821975 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: PTI
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Plágio & intertextualidade

Não há ideias novas. Nada se cria, tudo se copia – já dizia Chacrinha, o gênio da televisão. Segundo Lavoisier, nada se perde, tudo se transforma. Na arte, tudo se come. É a Antropofagia de Oswald de Andrade: deglute-se o velho para se fazer o novo. Camões deglutiu “Sôbolos rios que vão...”, de São João da Cruz, grandíssimo poeta seu contemporâneo, além de santo. “Sôbolos rios...” tem todo o sabor camoniano, apesar de nascer de outra mente e coração.

Como “Alma minha gentil...” nasceu do estro de Lope de Vega, para a obscuridade das excelentes obras perdidas nos desvãos do tempo, não fosse Camões se apropriar dela, degluti-la, fazê-la sua. Um poema delicadíssimo sobre o amor perdido. Um poema conhecidíssimo de todos nós graças a Camões, que o tirou do limbo para a glória. Camões virou Vergílio do avesso, tomou o seu “arma virumque cano” e tornou-o “as armas e os barões assinalados”, tomou a história de Roma e cantou a história de Portugal. Foi só um ponto de partida, devorou a Eneida para parir “Os Lusíadas”.

Hoje, damos esses nomes elegantes – intertextualidade, diálogo com outras obras, citações – a processos antigamente naturais, que depois foram chamados de puro plágio, roubo, crime intelectual. A arte, afinal, nasceu anônima. Era propriedade humana. Existia para ser fruída pelo homem. Não importava quem tinha feito.

Por isso a dúvida se Homero teria existido, embora alguém certamente tenha escrito as histórias fabulosas que aquele cego cantava de cidade em cidade. Até de Shakespeare, muito mais próximo de nós, há gente que chegou a negar-lhe a existência.

Claro que alguém escreveu aquelas peças essenciais que elevaram a literatura a seu nível mais alto, mas ainda se questiona: Quem foi Shakespeare? Teria um outro nome? Cervantes, seu contemporâneo, chega a brincar com essa história de autoria. No segundo volume do seu “Quixote”, inventa um árabe que teria escrito as aventuras do fidalgo nascido num lugar da Mancha e seu escudeiro Sancho Pança, dizendo ser ele mesmo, o autor, apenas um tradutor.

Hoje, com a Internet, embaralha-se outra vez a questão da autoria. Não se sabe mais quem é quem, vivemos num mundo virtual em que tudo é de todo mundo. Os antigos praticavam a intertextualidade – com uma certa antropofagia oswaldiana – a seu bel prazer, sem citar os nomes das obras ou autores citados, como uma homenagem. Estaria firmado um acordo de cavalheiros do espírito: todos saberiam a propriedade da obra copiada com engenho e arte, para se tornar nova e com nova autoria. Depois, banalizou-se o processo e surgiu o problema do plágio, como crime. Mas hoje o autor se tornou ninguém, uma entidade virtual.

Embaralham-se os autores, cita-se uma obra atribuindo-se sua propriedade intelectual a esse ou àquele aleatoriamente, tanto faz, ninguém é ninguém. Voltaremos ao estágio primitivo em que a arte não tinha dono, era criada para a fruição estética de todos, para o prazer, a elevação do homem? Não se criava por dinheiro, fama, nem por nenhum motivo torpe ou nobre que foi surgindo ao longo dos séculos. O criador era, como diria Borges, um amanuense do Espírito. Quem dera estivéssemos regredindo a esse mundo ideal...

(José Carlos Brandão. Professor, poeta e cronista. Disponível em: https://www.jcnet.com.br/opiniao/tribuna_do_leitor/2014/01/283764-plagio---intertextualidade.html.)

Sobre o emprego da intertextualidade, pode-se afirmar que o texto apresentado:

 

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