O SOLDADO AMARELO
Era um facão verdadeiro, sim senhor, movera-se [III] como um raio cortando palmas de quipá. E estivera a pique de rachar o quengo de um sem-vergonha. Agora dormia na bainha rota, era um troço [IV] inútil, mas tinha sido uma arma [IV]. Se aquela coisa tivesse durado mais um segundo, o polícia estaria morto. Imaginou-o assim, caído, as pernas abertas, os bugalhos apavorados, um fio de sangue empastando-lhe os cabelos, formando um riacho entre os seixos da vereda. Muito bem! Ia [I] arrastá-lo para dentro da caatinga, entregá-lo aos urubus. E não sentiria remorso. Dormiria com a mulher, sossegado, na cama de varas. Depois gritaria aos meninos, que precisavam de criação. Era um homem, evidentemente.
Aprumou-se, fixou os olhos nos olhos do polícia, que se desviaram. Um homem. Besteira pensar que ia [I] ficar murcho o resto da vida. Estava acabado? Não estava. Mas para que suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo? Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! Não se inutilizava, não valia a pena inutilizar-se. Guardava a sua força.
Vacilou e coçou a testa. Havia muitos bichinhos assim ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e ruins.
Afastou-se [II] inquieto. Vendo-o acanalhado e ordeiro, o soldado ganhou coragem, avançou, pisou firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o chapéu de couro.
- Governo é governo.
Tirou o chapéu de couro, curvou-se e ensinou o caminho ao soldado amarelo.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.
Atente a essas considerações:
I) A forma verbal “ia” reflete o uso coloquial do verbo “ir” nessa situação de comunicação, forma habitual da fala, porém rejeitada pela gramática, que orienta o emprego da forma “iria”.
II) O pronome “se” empregado no texto expressa ideia de reflexividade para o verbo que o precede.
III) O verbo “mover” encontra-se devidamente flexionado no pretérito perfeito, por se referir a uma ação ocorrida no passado referente ao facão do personagem.
IV) O substantivo “arma” expressa uma função em oposição ao substantivo “troço” referindo-se ao objeto que no momento é descrito no texto.
Das assertivas acima, são consideradas CORRETAS as que se apresentam nos itens