Instrução: A questão refere-se ao texto abaixo.
Há na palavra tolerância algo de condescendente, se não de desdenhoso, que incomoda. Lembrem-se do chiste do poeta francês Paul Claudel: "Tolerância? Há casas para isso!" Isso diz muito sobre Claudel e sobre a tolerância. Tolerar as opiniões do outro acaso já não é considerá-las inferiores ou incorretas? À rigor, só podemos tolerar aquilo que teríamos o direito de impedir: se as opiniões são livres, como devem ser, não dependem, pois, da tolerância! Daí um novo paradoxo da tolerância, que parece invalidar sua noção. Se as liberdades de crença, de opinião, de expressão e de culto são de direito, não podem ser toleradas, mas simplesmente respeitadas, protegidas, celebradas.
A palavra tolerante, no entanto, impôs-se, na linguagem corrente, para designar a virtude que se opõe ao fanatismo, ao sectarismo, ao autoritarismo, em suma... à intolerância. Esse uso não me parece desprovido de razão: ele reflete, na própria virtude que a supera, a intolerância de cada um. Em verdade, só se pode tolerar o que se teria o direito de impedir, de condenar, de proibir. Mas esse direito que nós não temos quase sempre temos a sensação de tê-lo. Não temos razão de pensar o que pensamos? E, se temos razão, como os outros não estariam errados? E como a verdade poderia aceitar – a não ser por tolerância – a existência ou a continuidade do erro? O dogmatismo sempre renasce, ele nada mais é que um amor ilusório e egoísta da verdade. Por isso chamamos de tolerância o que, se fôssemos mais lúcidos, mais generosos, mais justos, deveria chamar-se respeito, de fato, ou simpatia ou amor... Portanto, é a palavra que convém, pois o amor falta, pois a simpatia falta, pois o respeito falta.
A tolerância – por menos exaltante que seja esta palavra – é, pois, uma solução passável; a espera de melhor, isto é, de que os homens possam se amar ou simplesmente se conhecer e se compreender, demo-nos por felizes com que eles comecem a se suportar.
Adaptado de: COMTE-SPONVILLE, A. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo, Martins Fontes, 1999. p.186- 188. Disponível no site do COMITÊ DA CULTURA DE PAZ: http://www.comitepaz.org.br/comte4.htm
Assinale as afirmações abaixo com V (verdadeiro) ou F (falso), no que se refere à pontuação do texto.
( ) As aspas empregadas em "Tolerância? Há casas para isso!" (l. 02) têm a função de destacar ironia veiculada pelas sentenças.
( ) Os dois-pontos usados em Esse uso não me parece desprovido de razão: (l. 07) servem para introduzir uma enumeração.
( ) O ponto de interrogação empregado em Não temos razão de pensar o que pensamos? (l. 09) serve para caracterizar uma pergunta retórica.
( ) As reticências em ou amor... (l. 12) poderiam ser substituídas por um ponto, sem prejuízo da idéia veiculada pela pontuação original.
A seqüência que preenche corretamente os parênteses, de cima para baixo, é