Leia o texto, extraído de uma entrevista concedida a Clarice Lispector por Lygia Fagundes Telles, para responder às questões de números 58 a 60.
– Como nasce um conto? Um romance? Qual é a raiz
de um texto seu?
– São perguntas que ouço com frequência. Procuro
então simplificar essa matéria que nada tem de simples.
5 Lembro que algumas ideias podem nascer de uma simples
imagem. Ou de uma frase que se ouve por acaso. A ideia
do enredo pode ainda se originar de um sonho. Tentativa
vã de explicar o inexplicável, de esclarecer o que não pode
ser esclarecido no ato da criação. A gente exagera (...) no
10 fundo sabemos disso perfeitamente – tudo é sombra. Misté-
rio. O artista é um visionário. Um vidente. Tem passe livre
no tempo que ele percorre de alto a baixo em seu trapézio
voador que avança e recua no espaço: tanta luta, tanto em-
penho que não exclui a disciplina. A paciência. A vontade
15 do escritor de se comunicar com o seu próximo, de seduzir
esse público que olha e julga. Vontade de ser amado. De
permanecer. Nesse jogo ele acaba por arriscar tudo. Vale o
risco? Vale se a vontade for cumprida com amor, é preciso
se apaixonar pelo ofício, ser feliz nesse ofício. Se em outros
20 aspectos as coisas falham (tantas falham) que ao menos fi-
que a alegria de criar.
(Clarice Lispector. Entrevistas, 2007.)
O pronome relativo que exerce a função de objeto direto, e não de sujeito, apenas no trecho