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2357566 Ano: 2020
Disciplina: Português
Banca: Asconprev
Orgão: Pref. Moreilândia-PE

A Andorinha

Não esperaria mais, que elas podiam voar. Havia seis pousadas agora, juntas. Apontaria numa: às vezes podia errar e acertar na outra perto. Colocou a pedra no couro. Fez a pontaria. O coração começou a bater depressa, contou até dez, apontou, apontou, e deu a estilingada. No primeiro instante, viu confundidos as pancadas de seu coração e o voo assustado das andorinhas – e então gritou “acertei!” “acertei!”, vendo uma andorinha despencando rente ao poste. Quis logo correr a ela, mas estacou, lembrando-se de repente que talvez ela não estivesse morta: pelo jeito de cair, ainda parecia viva, e teria de se aproximar com cuidado, senão ela poderia fugir. Vira bem onde ela caíra: no monte de capim seco ao redor do poste. Ele acertara e ela estava lá, talvez morta, talvez viva ainda. Pôs outra pedra no estilingue e aproximou-se. Ao curvar-se sobre o capim, viu atônito, confuso a andorinha voar e deu a estilingada a esmo; viu-a voando rasteiro, rente à parede do armazém, e correu a procurar outra pedra, que só achou ao fim de alguns minutos; colocou-a no estilingue e correu para a andorinha.

Podia agora vê-la inteiramente: ela estava encolhida no chão, no ângulo formado pelo armazém e uma pilha de tijolos velhos; era uma andorinha de asas muito pretas e luzidias. Não parecia que ia tornar a voar: uma de suas asas estava estirada sobre o chão, e a cabecinha levemente erguida. Ela estava deitada, estava caída, como se não pudesse firmar-se. Pensou que ela talvez estivesse apenas tonta; talvez a pedra tivesse atingido só de raspão e ela fosse voar a qualquer instante. E se ele errasse a próxima pedrada, ela podia assustar-se e dessa vez voar para o céu, para longe – e ele teria perdido tudo, perdido a grande sorte que tivera aquela tarde, acertando pela primeira vez.

Mas era engraçado: vendo o pássaro ali no chão, à sua frente, pertinho, não tinha vontade de dar a estilingada. Era muito diferente vê-lo em cima do fio, o peito erguido, a cabecinha destacando-se contra o azul do céu. Ali embaixo, caído no chão, encolhido contra a parede escura e suja do armazém, tão fácil de acertar, ele não tinha mais aquela vontade violenta de dar a estilingada. E era engraçado também como ele estava calmo, como seu coração não estava batendo doidamente.

Caminhou devagar para ela, o estilingue em punho, esperando apenas o primeiro movimento dela para desferir a pedrada, mas ela não se movia. Talvez não estivesse apenas tonta; talvez estivesse ferida, tão ferida que não podia mover-se.

Chegou bem perto: ela encolheu-se um pouco mais contra a parede, mas não fez ameaça de voar; havia qualquer coisa: ela não voaria. Afrouxou o estilingue e ficou olhando. Percebeu o medo no olhinho que piscava, sentiu-se poderoso e cruel diante da insignificância e fragilidade do pássaro. Estava ali, sem fuga, sem voo, sem distância, sem erro, o que seria seu primeiro pássaro – por que não dava logo a pedrada mortal? não o matava por quê?

Agachando-se, estendeu a mão devagar para não a assustar, e então segurou-a: ela não se debateu; e antes que abrisse os dedos para olhar, sentiu a umidade e compreendeu que era sangue: a pedra havia acertado de cheio. E então teve raiva; teve raiva de si mesmo, do domingo, e do que fizera; teve raiva; teve raiva de sua astúcia, sua espera, sua alegria, e agora sua impotência: sabia que a andorinha ia morrer, sabia que ela ia morrer e que ele não podia fazer nada.

(Luís Vilela, No bar: contos. 2.ed. São Paulo: Ática, 1984.)

No final do texto, o menino desiste de matar o pássaro, pois:

 

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