MENINO PRECOCE
Diz que era um menino de uma precocidade extraordinária e vai daí a gente percebe logo que o menino era um chato, pois não existe nada mais chato que menino precoce e velho assanhado. Todos devemos viver as épocas condizentes com nossas idades; do contrário, enchemos o próximo.
Mas deixemos de filosofias sutis e narremos: diz que o menino era tão precoce que nasceu falando. Quando o pai soube disso não acreditou. O pai não tinha ido à maternidade no dia em que o menino nasceu, não só porque não precisava, como também porque tinha que apanhar uma erva com o Zé Luís de Magalhães Lins, para pagar a “délivrance” que era quase o preço de um duplex, pois a mulher cismou de ir para a casa de saúde do Guilherme Romano. Mas isto também não vem ao caso. O que importa é que o menino já nasceu falando. Quando o pai soube da novidade, correu à maternidade para ouvir o que tinha o menino a dizer. Chegou perto da incubadeira e o garoto logo se identificou com um “oba”. O cara ficou assombrado e mais assombrado ficou quando o nenenzinho disse:
– Papai vai morrer às duas horas! – dito o que, passou a chupar o bico da mamadeira e mais não disse e nem lhe foi perguntado.
O cara voltou para casa completamente abilolado. Sem conter o nervosismo, não contou pra ninguém a previsão do menininho precoce, mas ficou remoendo aquilo. Dez e meia, onze, meio-dia... e o cara começou a suar frio. Uma da tarde, e o cara estava suando mais que o marcador de Pelé. Quando deu duas horas ele estava praticamente praticamente arrasado e quando passou da hora prevista um minuto ele começou a se sentir aliviado. E estava dando o seu primeiro suspiro, quando ouviu um barulho na casa do vizinho. Uma gritaria, uma choradeira. Correu para ver o que era: o dono da casa tinha acabado de falecer.
PONTE PRETA, Stanislaw. Garoto linha dura. 4. ed. São Paulo:
Civilização Brasileira, 1975.
De acordo com o texto, assinale a alternativa correta: