O Sudoeste e a Casuarina
(Joel Silveira)
Entre a fuga do vento Nordeste e o primeiro sopro frio doSudoeste, há um instante vazio e ansioso: as cigarras calam, seeriçam as águas da lagoa e as casuarinas, que se balançavamindolentes, imobilizam-se na rigidez morta e reta dos ciprestes.Os urubus debandam das palmeiras, os pescadores recolhemas velas, e daqui da varanda vejo os lagartos procuraremmedrosos os seus esconderijos. “É o sudoeste”, penso, e logoele chega carpindo penas e desgraças que não são suas.
“Estou vindo do mar alto, trago histórias”, diz ele com asua voz agourenta. Ao que responde, enfastiada, a Casuarina:“Detesto as tuas histórias”.
Também eu, porque sei o que signifca pra mim o prantodesatado e frio. Logo esta varanda, que o Nordeste amornarapara o meu sono, estará tomada por tudo o que o vento ruimtraz consigo: a baba do oceano doente, a escuma amarela epútrida, o calhau sangrento, o grito derradeiro dos náufragos,os olhos esbugalhados das crianças afogadas que nãoentenderam o último instante, o hálito pesado do marinheiroque morreu bêbado e blasfemo, o lamento do grumete que omastaréu partido matou e atirou ao mar.
Assim são as histórias do Sudoeste. Ouvindo-as (e tenhode ouvi-las, como se elas viessem de dentro de mim, como sepor dentro eu tivesse mil frinchas por entre as quais o Sudoestepassa e geme) ressuscito os meus mortos e minhas tristezase a eles incorporo a amargura dos incertos e a angústiasobressaltada dos que têm medo – tão minhas agora. E vejo,destacada na escuridão como uma medusa no mar, a mãolívida do meu pai morto, imobilizada no gesto, talvez amigo,que não chegou a ser feito; e os pequenos dentes do meuirmão Francisco, que morreu sorrindo; e escuto, nos soluços dovento, aquele terrível convulso regougar de Maria que a mortelevou num mar de sangue e vômito; e tremo e me apavoro, nãopor receio de não ter enterrado para sempre meus mortos, maspor medo de tê-los enterrado antes de ter pago tudo o que lhesdevia.
Vocabulário:
Casuarina – espécie de árvores e arbustos
Cipreste – planta usada para arranjos às quais se associa aideia de tristeza
Carpindo – capinar
Calhau – pedra de pequena dimensão
Grumete – graduação mais inferior da Marinha
Mastaréu – mastro pequeno
Regougar – soltar a voz