Magna Concursos
1894215 Ano: 2018
Disciplina: Português
Banca: Instituto Acesso
Orgão: SEDUC-AM
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Defendo meu individualismo'
A grande utopia que nós temos é, antes de inventar um país, inventar um povo. Ainda não somos um povo. Santo Agostinho diz, na "Cidade de Deus", que o povo é um conjunto de pessoas racionais unidas por um sonho comum. A situação trágica do Brasil agora é que temos uma política, mas ainda não conseguimos criar um povo, não criamos um sonho comum. Sem isso, não teremos condições de fazer um país, porque todas as coisas são feitas a partir do sonho.
(...)
Guimarães Rosa tinha raiva de político. Ele dizia: "Os políticos pensam só no momento e eu penso na eternidade, eu espero a ressurreição". Ele estava pensando numa coisa grandiosa e queria produzir uma transformação na sociedade, por meio da transformação das visões, das imagens, das maneiras de pensar das pessoas. Ele estava fazendo utopia, ele estava fazendo política, pela literatura.
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Eu tenho um medo extremo da utopia. As grandes ditaduras não foram feitas por pessoas cruéis, mas por pessoas que falavam em nome do povo e diziam haver descoberto qual era o desejo do povo.
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A história é o campo da irracionalidade, das coisas imprevisíveis. Por isso eu abandonei as grandes utopias e me contento com as pequenas: a utopia da minha casa, a utopia da sala de aula, a escola.
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Eu concordo inteiramente que é preciso ter utopia. Eu falei sobre a necessidade do sonho, mas eu só não quero que os políticos sejam administradores dos sonhos do povo. Quem deve ser então? Isso é que eu não sei. Essa é a minha dor. Eu não sei.
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Eu sonho com uma utopia em que as pessoas de ideias diferentes não sejam acusadas de burras, estúpidas e reacionárias. Eu quero defender uma sociedade em que as pessoas tenham a liberdade, o direito de dizer a sua palavra, porque justamente essa palavra de discordância contra a ideologia, contra o partido, é essa palavra que abre, que quebra e cria a possibilidade de que o pensamento permaneça livre. A liberdade nunca foi conseguida pelo consenso. São sempre as figuras solitárias. De figuras solitárias como Jesus Cristo é que depende o futuro da humanidade. Eu quero defender o meu individualismo, o meu direito de pensar.
São Paulo, domingo, 10 de setembro de 1995 Fonte: ALVES, Rubem, Folha de São Paulo Disponível em : Acesso em: 17 maio 2018
"A grande utopia que nós temos é, antes de inventar um país, inventar um povo. Ainda não somos um povo." Para o autor, o que falta para sermos um povo é:
 

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