A filosofia está na moda. Depois do esoterismo, da
auto-ajuda, das iogas, da idolatria e das seitas, o novo
produto nas gôndolas são as idéias, o pensamento. A
perturbação diante de tantas mazelas, a velocidade das
mudanças, o ruído das coisas ou o mix de tudo isso está
levando as pessoas a trocar o personal trainer pelos tutores
intelectuais privados.
A sociedade pós-industrial aposentou os
economistas, o fim das ideologias está dispensando os
cientistas políticos, mas as perplexidades produzidas pelo
progresso sem bem-estar aumentaram a demanda pelos
filósofos. De preferência portáteis, agradáveis, recarregáveis
e sintéticos. Robôs capazes de recitar meia dúzia de sonoras
epígrafes e verbetes quando se aciona certa tecla ou se
menciona determinada palavra.
O que diria Sócrates diante do roubo de 2 milhões
de reais de dentro das dependências da Polícia Federal no
Rio? Tomaria outra dose de cicuta ou tentaria avaliar aquele
agrupamento humano incapaz de produzir diferenças entre
benfeitores e malfeitores?
O caso andou pelas manchetes, agora está nas
páginas dos crimes quotidianos, deixou o ranking do
impensável e encaixou-se no das banalidades. Mas é um dos
acontecimentos mais surpreendentes desta temporada de
surpresas. Seu ineditismo e sua dimensão o colocam no
âmbito dos paradigmas, caso de estudo, transcendental.
O policial-ladrão não é apenas uma excentricidade
como o homem que morde o cão. É uma subversão de todos
os valores, ruptura elementar da ordem, sinal de um caos
conceitual que anula os códigos e torna impossível qualquer
tipo de consenso. O agente da lei que pisoteia a lei representa
a impossibilidade da convivência.
De repente, descobre-se como são enganosas e
desviantes certas palavras de ordem marteladas há algumas
décadas tanto por governantes como pelos governados.
“Tudo pelo social” foi uma perigosa simplificação que
retirou das nossas preocupações o sentido moral da política.
Alberto Dines. Tempos modernos – revolução moral e revolução social. In: Jornal de Debates do Observatório da Imprensa, em 26/9/2005. Internet: observatorio.ultimosegundo.ig.com.br (com adaptações)
Com referência às idéias e às estruturas do texto, julgue os itens a seguir.
No segundo parágrafo, há relação entre campo de atuação e profissional nas seguintes aproximações: sociedade pós-industrial > economistas, fim das ideologias > cientistas políticos, progresso > filósofos.