O trono sem povo é uma árvore sem raízes, é um edifício sem fundamentos. O vento que soprar mais forte despregará a árvore da terra, e rolará o edifício nas areias.
Já se dizia na nossa Constituinte:
“O trono não tem uma força própria; a de que goza reside na ideia que dele formam os POVOS”.
E o povo, existe ele hoje?
Não: o que temos é uma corrente ligeira que todos desviam de seu alvo, e que lambe os pés de todos que dominam. O que temos é uma voz enfraquecida, que se perde no espaço da terra brasileira. Mas um dia essa voz, quase perdida, será um rugido de trovão, e a tempestade abalará os dormentes da caverna. Um dia essa corrente humilde far-se-á rio caudal para arrebatar as insígnias falsas, e arrastar no vórtice das espumas esse rochedo que parece afrontar os ventos da democracia.
Por isso desfalecer é um crime. A terra brasileira é a mãe de nobres ideias, o alenta o valor de seus filhos Antêos.
(…)
Na batalha a bandeira rota é a mais gloriosa, e o fumo que a cresta fala dela ao patriotismo.
Ai de nós se o ceticismo nos arrebatasse a esperança porque a alma magnânima do povo não sofreria as ânsias cruéis do cativeiro.
Esperemos.
Em vez do governo de hoje, em vez do regime pessoal, que as leis criaram, virá o puro governo representativo; em vez da vontade de um só substituída à palavra sincera dos comícios virá a voz da praça pública; em vez do imperialismo, teremos a democracia.
Esperemos.
A regeneração social será completa. Há um pêndulo que marca as eras das crises nacionais, e o Brasil está em crise.
Joaquim Nabuco. O povo e o trono. In: Leonardo Dantas Silva (Org.) Nabuco e a República. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Ed.
Massagana, 1990, p. 9. Internet: <www.fundaj.gov.br>.
No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto acima, assinale a opção correta.