Justiça foi feita. Di Cavalcanti teve reconhecida sua parte de importância na Semana de 22. Sabemos que, antes de desenhar o catálogo e tomar parte da mostra artística, levou sua roda à mansão do mecenas Paulo Prado, onde surgiu a ideia de um festival nos moldes franceses, com pintura, audições musicais, declamação e até desfiles de moda. A São Paulo, polo econômico, faltava emancipação cultural. Assim, a burguesia cafeeira estrategicamente endossou a proposta, financiando a Semana de Arte Moderna.
Agora, nas comemorações do centenário do evento, artigos têm evocado Di e outros nomes até então deixados de fora. Interessa indagar, no caso, porque, durante tanto tempo, o crédito coube apenas a Mário e Oswald de Andrade, além de Tarsila do Amaral, que sequer estava no país na ocasião. Como se explica que, passados quase cem anos, precisamos lembrar os demais artistas e intelectuais de destaque na época, mas ofuscados pelo brilho excessivo do trio?
Vale reiterar que o projeto estético resultante da Semana, estopim do modernismo, surgiria aos poucos, no decorrer dos debates que dariam origem a manifestos e revistas. Ou seja, sua construção teórica foi sendo construída nas correntes que nasceriam depois. Nesse sentido, os três tiveram papel seminal.
Mário editava “Paulicéia Desvairada”, com uso livre da métrica, bem no ritmo das vanguardas europeias. Em 1928, seria publicado “Macunaíma”, um dos principais acontecimentos do nosso modernismo. Com o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, de 1924, Oswald estabelecia os fundamentos de um novo fazer literário. Sua poética baseada na técnica de montagem, de interações com as artes plásticas e o cinema, influenciaria toda uma geração de escritores.
Anita Malfatti também poderia figurar entre os herdeiros privilegiados. Seu pioneirismo evidenciou-se no fato de que, entre os 100 itens da exposição, 20 eram de sua autoria. Eleita mártir inspiradora do grupo, devido às críticas de Monteiro Lobato, cairia no esquecimento ao abandonar as pinceladas vigorosas, impactadas pelo expressionismo alemão. Natural, portanto, que Tarsila ocupasse o posto de musa. Apesar de não ter exposto no saguão do Theatro Municipal de São Paulo, ela fez coincidir sua pintura com a obra de Mário e Oswald.
Residem, aí, algumas das razões para a consagração desses personagens como porta-estandartes da Semana de 22, excluindo Di Cavalcanti e seus pares. Contudo, também pesou a eficiente máquina de propaganda dos próprios protagonistas. A estratégia perpassou todo o século 20, envolvendo um conjunto de agentes, críticos, historiadores, curadores de arte e intelectuais que, sobretudo no meio acadêmico, aprovaram a supremacia dos três.
(CAMARGOS, Márcia. Os donos da narrativa, Folha de São Paulo, 28.11.2021. Adaptado).
Analise a frase abaixo para responder à questão.
Natural, “portanto”, que Tarsila ocupasse o posto de musa. “Apesar de” não ter exposto no saguão do Theatro Municipal de São Paulo, ela fez coincidir sua pintura com a obra de Mário e Oswald.
É correto afirmar que os termos destacados possuem, respectivamente, o sentido de