"O Brasil do século XIX, excluindo-se a primeira e a última década, conviveu intensamente com a realeza. De 1808 a 1889 os brasileiros acostumaram-se a ter um rei à frente da cena política. Mas se D. João, D. Pedro I, D. Pedro II e a princesa Isabel - esta, quando da ausência de seu pai - ocuparam o espaço formal do mando executivo, no dia-a-dia interagiram com outros reis e rainhas. Estamos falando de uma série de personagens que lideravam as festas populares e que, provenientes de reinos distantes - presentes na memória dos escravos africanos ou nas lembranças dos saudosos colonos portugueses, povoaram o nosso assoberbado calendário de festas. Oriundo de tradições diversas e de cosmologias particulares, esse puzzle ritual fez do Brasil o país das festas, o depositário de um arsenal de símbolos, costumes e valores. Contudo, mais do que isso, tal qual um caleidoscópio, essas tradições não foram apenas se reproduzindo, como o movimento rotineiro de um motor.Ao contrário, dinamicamente, acabaram por criar festas próprias e leituras originais de um material que lhes era anterior. Nesses rituais, teatralizava-se um grande jogo simbólico e, entre outros figurantes, a realeza era personagem freqüente, porém não sempre principal."
(SCHWARCZ, Lília Moritz. As barbas do Imperador - D. Pedro II um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 378-379).
O material simbólico reproduzido nas festas populares permite entender que