Texto 2 para responder à questão.
Um encontro clínico fora dos padrões
O médico já havia tomado seu lugar na sala de consulta do ambulatório. Naquele dia não havia estudantes, estavam em greve. O paciente permaneceu sentado em um banco em frente à sala cujo número correspondia à sua senha. Uma auxiliar abriu a porta e chamou seu nome. Levantou-se, caminhou um passo assustado naquele ambiente totalmente estranho, tendo em seus pensamentos a lembrança de sua mulher e de seus filhos. O médico, demonstrando educação, colocou-se de pé para receber o paciente, com ar amistoso, convidando-o a sentar-se diante da escrivaninha.
— Bom dia, seu José! [O médico sabia o nome dele porque estava no prontuário.]
— Bom dia, doutor. [O paciente não sabia o nome do médico. Era apenas o “doutor”.]
— O que o senhor sente? [Era sua maneira de iniciar a anamnese.]
— O que eu sinto, doutor, é muita saudade da minha mulher e de meus meninos! Deixei eles ontem de madrugada. Minha mulher toma conta direitinho deles. Eu sei, mas estou preocupado.
— Seu José, o que o senhor tem? [O médico reformulou sua pergunta, pensando que o paciente não havia entendido o seu significado.]
— Ah! Doutor, não tenho quase nada. Só tenho umas galinhas, um porquinho engordando no chiqueiro, uma rocinha de mandioca, pouca coisa, doutor!
— Seu José, qual é a sua doença? [O médico pensou novamente que fizera a pergunta de maneira errada. Na mente do paciente, naquele momento “sentir” e “ter” não estavam relacionados com sua doença. Por isso, o médico decidiu, mesmo contrariando o que ensinava a seus alunos, fazer uma pergunta mais direta.]
— Ah! Doutor, o senhor é que sabe, o senhor é médico. O senhor sabe muita coisa, Vim aqui para o senhor me curar, para eu poder voltar logo para minha casa. Preciso tomar conta da minha família e de minhas coisinhas.
— Seu José, por favor, tire a camisa e deite-se nesta mesa para eu poder examiná-lo. [O médico percebeu que precisava mudar a estratégia para encontrar um ponto de contato entre ele e o paciente.]
A partir de então, as expectativas do médico e do paciente entraram em sintonia. Naquele momento, o encontro clínico teve início de verdade, uma vez que o médico se deu conta de que teria de fazer uma adaptação das técnicas de entrevista para aquele paciente. Naquele caso, a melhor técnica foi fazer a história durante a realização do exame físico. À medida que examinava o paciente, fazia as perguntas que tornavam possível a construção de uma história clínica.
PORTO, Celmo Celeno. Disponível em: http://www.rmmg.org/artigo/detalhes/2377. Acesso em: 9 set. 2022, com adaptações.
O médico, diante da dificuldade apresentada, assumiu uma atitude