O Haiti ainda luta para se recuperar
Jean-François Savard, Emmanuel Sael e Joseph Jr. Clormeus
Em 12 de janeiro de 2010, mais de 300 mil haitianos morreram, centenas de milhares acabaram feridos e quase 1,5 milhão ficaram desabrigados quando o terremoto de magnitude 7 atingiu o Haiti. Naquele dia, o local de trabalho que o meu colega Joseph Jr. Clormeus normalmente ocupava, no Ministério da Educação Nacional, desabou por completo. Ele testemunhou um espetáculo apocalíptico: colegas perderam a vida, enquanto outros tiveram membros amputados para escapar da morte certa sob os escombros. No lado de fora, cadáveres cobriam as ruas da capital com o horrível espetáculo de sangue misturado com cimento e poeira. Dez anos depois, o Haiti não se recuperou desse desastre, embora bilhões de dólares tenham sido gastos no país. Dois fatores principais explicam essa tragédia: a fraqueza das instituições públicas haitianas e a desorganização da ajuda internacional, sobretudo das ONGs.
O Haiti é vulnerável a terremotos. Historicamente, esses eventos geológicos eram gerenciados pelos militares, que desempenharam um papel importante na gestão de desastres naturais. Mas houve um desmantelamento do Exército Nacional na presidência de Jean-Bertrand Aristide – fato que não permitiu a transferência da experiência para outras instituições públicas civis. De fato, muito know-how desapareceu. Apesar da presença de vários órgãos do governo – que , diga-se de passagem, tentaram desenvolver habilidades em relação a terremotos –, nenhum órgão operacional confiável foi capaz de gerenciar o vácuo institucional. Porto Príncipe, cidade originalmente projetada para três mil habitantes, abrigava quase um milhão. Dez anos depois (do terremoto), podemos notar que nada realmente mudou. A capital e seus arredores são superpovoados, e não há políticas reais de planejamento urbano. Nesse contexto, qualquer grande terremoto só poderia levar a consequências desastrosas, que o país enfrenta até hoje.
A fraqueza da administração pública do Haiti tem sido agravada pela desorganização do apoio internacional. Diversos estudos também mostraram, e observamos isso em campo, que a assistência da comunidade internacional implantada imediatamente após o terremoto, não conseguiu enfrentar um desafio humanitário de tal extensão. Não houve coordenação nas intervenções dos países amigos para otimizar seus esforços. Com presença em campo desde 2012, observamos que a maioria das ONGs chegou ao Haiti não para responder a uma necessidade expressa pelo governo desse país, mas para servir a seus próprios interesses, como relata Joanne Liu, ex-presidente da organização Médicos Sem Fronteira.
Uma década depois, os desafios ainda são imensos para o Haiti, pois o país deve desenvolver políticas de construção que se adaptem a certa visão de planejamento urbano. Também deve ajudar as gerações pós- terremoto a aprender com o passado, desenvolver e implementar um plano de emergência para desastres naturais e projetar e colocar em prática políticas e espaços adaptados para pessoas com deficiência. Ao olharmos para 12 de janeiro de 2010, levantamos uma questão tão preocupante quanto fundamental: o governo haitiano e a comunidade internacional realmente aprenderam alguma lição com o terremoto?
(Disponível em: https://politike.cartacapital.com.br/o-haiti-ainda
-luta-para-se-recuperar/ - texto adaptado especialmente para esta prova.)
O conectivo pois só NÃO poderia ser substituído, no contexto em que se encontra, por: