O né
Se eu fosse um filólogo, era bem capaz de me consagrar ao estudo do nosso né. Não há gente que passa a vida estudando um mosquito? Pois então? Ia pesquisar as funções que o né tem, quais seus significados explícitos e subentendidos, que íntima compulsão é essa que leva os falantes do idioma “floripês” e “catarinês”, principalmente, a usá-lo após cada meia dúzia de palavras. Acho que o né, em mãos hábeis, daria um livraço.
Não sei se acontece também com vocês, mas coisa que muito me agrada é ver o noticiário local da televisão, não só pelas novidades interessantes que, de repente, nele podem aparecer, como também, e, eu diria até sobretudo, pelo bom passatempo que é ficar contando quantas vezes o né é dito nas entrevistas.
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Talvez pareça que estou ironizando o né ou que caio na heresia de desejar que ele frequente menos nossa fala. Absolutamente. Saibam que até já briguei por causa dele. Briga de palavras, nada de tiros ou facadas, que o né é substancialmente pacífico. Um sisudo professor falou com desprezo do gosto que temos pela minúscula palavra e tivemos uma discussão. Caipirismo, disse ele; espontaneidade, disse eu. Concordei, é claro, que num deputado ou numa professora a quota de nés pode ser mais baixa, não mais que o suficiente para eles também provarem o doce sabor dessa frutinha provincial. Mas fora do papo formal, viva o né, que venham nés às pencas. Meu adversário me chamou de demagogo, eu o chamei de chato. A sorte é que a mulher dele interveio: “Chega de briga, vamos parar com isso, né?”. Os dois ficaram lá discutindo e eu, que não me meto em briga de casal, né, saí de fininho.
(CARDOZO, F. J. Uns papéis que voam. São Paulo: FTD, 2003.)
Muitas vezes as vírgulas são utilizadas para separar expressões ou orações encadeadas. Assinale a alternativa que apresenta exemplo desse emprego.