Magna Concursos
2381070 Ano: 2008
Disciplina: Português
Banca: FGV
Orgão: SAD-PE

Tempo livre, lazer e as transformações socioculturais

Já há algum tempo vem-se alertando sobre os efeitos da velocidade na vida profissional e social. Fazer tudo rapidamente dá uma sensação de que não se deve perder tempo. Reportagens que abordam excesso de trabalho, consumismo, felicidade, qualidade de vida revelam novos problemas e novas soluções. Todos os problemas apontam como vilão o trabalho, seja o excesso ou a falta dele.

Entretanto, o tema tempo livre ainda é entendido com muito preconceito. O tempo social, que ainda é predominantemente analisado, ainda é o tempo de trabalho. Todo processo educativo do homem tem o tempo de trabalho (alienado) como referência.

A idéia do direito ao trabalho, trabalho este construído ao longo da sedimentação das relações de trabalho capitalistas que se sustentam em longas jornadas de trabalho, ainda está presente em todas as reivindicações sindicais no mundo inteiro. Parte-se, ainda, da concepção de que apenas trabalhando, na acepção explorada, obtêm-se as chaves que dão acesso ao socialmente produzido na sociedade. Mas, com o desenvolvimento das forças produtivas, os trabalhadores não percebem que, insistindo nisso, ajudam mais rapidamente a excluir do usufruto do patrimônio humano produzido aqueles que ficam de fora. A distribuição da renda produzida além de desigual é expropriada na sua maior parte pela minoria e repartida apenas aos que provisoriamente permanecem em seus postos de trabalho, muitas vezes a qualquer preço e, outras vezes, não solidariamente.

Algumas reivindicações, que vêm ocorrendo no mundo do trabalho, sinalizam, às vezes, para uma disposição de mudança. As reivindicações por redução de jornada de trabalho, ao longo destes dois séculos, em defesa de melhores condições de vida no trabalho, ou para que haja trabalho para mais trabalhadores não são uma transformação, mas um passo significativo. No entanto, a redução da jornada de trabalho como bandeira para a construção de um novo estilo de vida é ainda uma reivindicação tímida.

O desemprego é um mecanismo de terror que impede que as massas, assalariadas ou não, possam aspirar a uma vida de fruição, embora seja justamente na reivindicação do ócio, da preguiça, que o trabalhador pode resgatar sua dignidade e auto-respeito, quando deixará de lutar pelo direito ao trabalho e passará a reivindicar a distribuição social da riqueza e o direito de fruir bens e prazeres. Por quê? Deve-se entender que todo tempo livre é tempo para o desenvolvimento livre. O tempo usurpado é apropriado pelo usurpador para seu próprio livre desenvolvimento.

Por outro lado, a verdadeira economia não está assentada sobre a redução da força de trabalho e sim sobre a redução do tempo de trabalho. O desenvolvimento das forças produtivas, com o avanço do conhecimento e das tecnologias, reduz os custos de produção a um mínimo. Então, reduzir o tempo de trabalho com o aumento das forças produtivas significa também aumentar as capacidades e os meios de prazer, de fruição. Assim é que economizar o tempo de trabalho é aumentar o tempo livre dos trabalhadores. Mas essa “economia de tempo” não tem aumentado o tempo livre do trabalhador, tem sim aumentado a jornada de trabalho dos que permanecem no mercado de trabalho e o medo do desemprego torna-os cegos, individualistas em alguns casos e corporativistas em muitos outros. O que deveria ser o enriquecimento pessoal para a fruição de um tempo livre descompromissado tornou-se mais um quesito na acirrada disputa por uma vaga no mercado de trabalho.

Essa consciência ainda está latente. Podemos refletir que romper com a velocidade vertiginosa imposta pela era da informação globalizada – que destrói e constrói o ambiente sociocultural numa velocidade que não se ajusta ao tempo do indivíduo, mas o substitui por outro já sintonizado, comprometendo populações e seus estilos de vida – significa romper com o preconceito, arraigado em nossa cultura, de desprezo à preguiça, ao prazer, à criação, à felicidade.

(Texto adaptado de LOPES, M. I. de S. In: Com ciência. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico – SBPC http://www.comciencia.br/comciencia)

De acordo com o texto, o principal motivo de os trabalhadores não reivindicarem o direito ao tempo livre, ao lazer e a fruição é:

 

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