TEXTO I
Muitas fugiam ao me ver…
Muitas fugiam ao me ver
Pensando que eu não percebia
Outras pediam pra ler
Os versos que eu escrevia
Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava livros para ler
Quantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida pelo preconceito
Se eu extinguir quero renascer
Num país que predomina o preto
Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz.
JESUS, C. M. de. Antologia pessoal. Org. José Carlos Sebe
Bom Meihy. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.
TEXTO II
Vozes-Mulheres
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
EVARISTO, Conceição. Poemas de recordação e outros
movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017. p. 10-11.
Os textos de Carolina Maria de Jesus (Texto I) e de Conceição Evaristo (Texto II) denunciam uma realidade comum aos excluídos pelo sistema hegemônico e, por isso, considerados sujeitos sem voz própria. Considere o gráfico a seguir.

Considere as afirmativas a seguir.
I. O ano que registrou a maior porcentagem de negros e pardos como parte da população com menor rendimento foi 2012. Consequentemente, nesse mesmo ano, houve a menor porcentagem de negros e pardos como parte da população com maior rendimento. Essa análise confirma a afirmação de Conceição Evaristo, em “Vozes-Mulheres”, quando contrasta os brancos como donos de tudo e os negros como moradores de favela.
II. Os dados estatísticos revelam que, durante dez anos, os negros e pardos são registrados como a maioria da população com menor rendimento no país. Esse é um retrato social consequente do fundo histórico indicado pela autora Conceição Evaristo, na obra “Vozes-Mulheres”, quando evoca as vozes afro-brasileiras desde a chegada dos navios com os africanos escravizados.
III. Em 2015, o grupo que representa os 10% da população com menores rendimentos é composto de 75,5% de negros e pardos. Essa realidade comprova a visão das autoras que identificam as mazelas sociais da população afro-brasileira.
IV. Nos anos analisados, negros e pardos não alcançaram 20% do total da população com maior renda do país. Esse pode ser um motivo que faz com que grande parte dos negros e pardos estejam em trabalhos informais com rendimentos mínimos, assim como descrito na obra de Carolina Maria de Jesus, em seu depoimento como catadora de papel.
Estão corretas as afirmativas
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