Preocupados com os próprios narizes
Diante do espelho, na terceira semana de quarentena, corto os pelos do nariz. Uso, para esta tarefa tão comezinha, uma moderna máquina da Panasonic. Sua função principal é cortar cabelo e barba, mas, removendo-se a peça com as lâminas paralelas, encaixa-se um tubinho preto e a traquitana dá às minhas fossas nasais um tratamento digno de “Brazilian wax” (eficiente forma de depilação introduzida em Nova York em 1987 por sete irmãs brasileiras). Custou menos de R$ 100.
Olho a máquina e lembro do Napoleão: do alto destas engrenagens, 40 séculos me contemplam. Arquimedes, Aristóteles, Euclides, Pitágoras, Leonardo da Vinci, Rutherford, George Ohm, Thomas Edison, Linus Pauling e Nicola Tesla são apenas alguns dos nomes diretamente envolvidos no corte preciso dos pelos do meu nariz.
Não nos esqueçamos, porém, das ciências humanas, pois sem um mundo estável, sem sociedades relativamente prósperas e pacíficas, esses gênios estariam cavoucando a terra atrás de tubérculos ou se matando com tacapes e não poderiam dedicar-se à ciência. Meu nariz deve agradecer também, portanto, a Sócrates, Platão, Aristófanes, Sófocles, Ésquilo, Ovídeo, Virgílio, Sêneca, Cervantes, Shakespeare, Hobbes, Locke, Rousseau, Montesquieu, Descartes, Camões. A lista vai longe.
Agora, com o mundo de pernas pro ar, percebo o absurdo contido nesta maquininha. Faltam máscaras hospitalares em diversos países. Faltam reagentes para testes. Faltam leitos e respiradores nos hospitais. Falta coordenação nas ações globais contra a pandemia. Não tínhamos um plano sobre o que fazer diante de um vírus contagioso e letal, mas temos uma fantástica máquina da Panasonic para cortar os pelos do nariz.
Onde nós estávamos com a cabeça nos últimos cem anos que não fomos capazes de nos preparar? Estávamos concentrados em produzir coisas como, por exemplo, minha máquina de cortar pelos.
Bilhões de dólares são gastos em comida para cachorro enquanto falta dinheiro para pesquisa em remédios para humanos. O Brasil gastou bilhões com a Copa e a Olimpíada antes de garantir saneamento básico à população. Imagino que mais tempo, dinheiro e neurônios foram depositados na logística que torna possível a entrega da minha maquininha Panasonic do que na preparação do mundo para esta pandemia. Tá muito errado.
Uma das oportunidades que surgem quando tudo deixa de ser como era é que não dá mais para normalizar bizarrices alegando que “é assim que as coisas são”. As coisas são como quisermos que sejam. Nós escolhemos narizes bonitinhos para alguns em vez de saúde para todos. Podemos desescolher.
(www1.folha.uol.com.br. Adaptado)
A partir da leitura, é correto afirmar que o texto