O velório do Guedes, que se realiza agora(I) num rancho enviesado e espremido entre um barranco e um enorme eucalipto, não está transcorrendo com aquela mesma pacatez. Há uma balbúrdia, um vozerio incessante de indivíduos meio bêbados que rodeiam o defunto como moscas tontas atraídas pelo odor cadavérico. Excitadas pelo mistério que ainda paira em torno da tragédia, aquelas imaginações grosseiras repastam-se no acontecimento insólito, levantando suposições arbitrárias, absurdas e desumanas. As idas e vindas da polícia contribuem para exacerbar a atmosfera de tensão criminosa que confina o ambiente estreito.(III)
Nada se sabe ao certo, mas cada qual aventa um palpite, que provoca discussões e interrogatórios policiais.
Presenciando todo esse alarido mexeriqueiro, aturdida, imóvel, impotente, Maria José só tem um desejo que a noite passe duma vez.
Gertudres, sim, encontra-se num dos seus dias e no seu elemento. De olhos dilatados, vibrante de atividade, mete-se em todos os grupos, espreitando, colhendo para o seu “trabalho”. Já prometeu a vários que há de descobrir tudo, assim que se recolha à sua casa e possa se concentrar. Ali mesmo, apesar do burburinho, já sentiu qualquer coisa: uns arrepios, uns sopros, uma tremura nas mãos – sinais evidentes de que está por receber uma comunicação importante.
Do lado de fora, acocorado contra a parede, Eusébio distrai uns três ou quatro com seus “causos” de antigo carreteiro, de homem que viveu trinta anos na estrada.
É um velhito delgado, de fala simpática e olhos muito vivos. Foi numa das últimas carreteadas que conheceu o Guedes, quando este andava procurando campo para se mudar. Nessa ocasião lhe disse, debaixo da carreta, adivinhando tudo o que ia suceder: “O fim de nós todos é lá na cidade, aperreados naquele chiqueiro”. Ora, dito e feito. Os rapazes estavam vendo... Certa feita, Guedes chegara de noite ao seu acampamento, achando a noite escura. Pediu-lhe pouso e, ora, se ia bem. O finado trazia uma linguiça de fiambre,(b) ainda se lembrava bem. E enquanto a linguiça foi dourando, torcendo-se e pingando gotinhas de graxa no braseado manheiro, eles começaram a matear, manguando a prosa por longe, como quem não quer, dando-se a conhecer afinal.
Adaptado de: MARTINS, Cyro. Porteira fechada.
9. ed. Porto Alegre: Movimento, 1989, p. 38-39.
Considere as seguintes afirmações acerca do texto.
I - O texto relata dois tempos: um se passa em um velório e está linguisticamente marcado pelo advérbio agora e por verbos no presente do indicativo; e outro que se passa numa história narrada por um dos personagens e está linguisticamente marcado por formas verbais no pretérito.
II - A história narrada por Eusébio no último parágrafo do texto mostra que Guedes já estava morto quando eles se conheceram, como se verifica pela oração O finado trazia uma linguiça de fiambre.
III - O narrador do texto é um dos personagens presentes no velório, provavelmente um dos policiais, como se verifica pela frase As idas e vindas da polícia contribuem para exacerbar a atmosfera de tensão criminosa que confina o ambiente estreito.
Quais estão corretas?