Nos últimos cem anos, o clima para os humanos tornou-se consideravelmente mais quente, não só devido ao aquecimento global, mas também por causa dos lugares onde escolhemos viver. Nos Estados Unidos, por exemplo, os estados com os maiores ganhos populacionais no século passado — Nevada, Flórida e Arizona — também estão entre os mais quentes.
Uma das razões para essa enorme mudança na geografia humana é o milagre do ar-condicionado, que permite às pessoas controlar a temperatura de seus espaços interiores. O ar-condicionado remodelou profundamente a vida humana nos países ricos, tendo influência sobre pequenas coisas, como a diminuição do tempo em que as janelas ficam abertas nos edifícios, e, também, sobre grandes coisas, como a disponibilidade de medicamentos. Insulina, diversos antibióticos, nitroglicerina e muitos outros remédios são sensíveis ao calor, podendo perder a eficácia se não forem armazenados na chamada “temperatura ambiente”, definida entre 20 °C e 25 °C. O armazenamento de remédios em clima controlado continua sendo um dos grandes desafios para os sistemas de saúde em países pobres, onde muitas unidades de saúde não têm eletricidade.
O ar-condicionado moderno tem outra peculiaridade: resfriar o interior aquece o exterior. A maior parte da energia que alimenta os sistemas de ar-condicionado vem de combustíveis fósseis, cujo uso aquece o planeta e, assim, torna cada vez mais necessário o uso de refrigeração.
Estamos começando a experimentar as consequências das mudanças climáticas, mas, mesmo assim, temos dificuldade de montar uma resposta humana global a esse problema causado pelos humanos. Acho que também é difícil enfrentarmos as mudanças climáticas porque os mais privilegiados de nós, as pessoas que consomem mais energia, podem se isolar do clima. Estou protegido do tempo na minha casa e no meu ar-condicionado. É fácil para mim sentir que o clima é um fenômeno majoritariamente externo, enquanto eu sou um fenômeno majoritariamente interno.
Mas tudo isso é um equívoco. Dependo totalmente do que considero o mundo exterior. Sou subordinado a ele. Em última análise, não há como os humanos escaparem às obrigações e limitações da natureza. Nós somos a natureza.
John Green. Ar-condicionado. In: Antropoceno:
notas sobre a vida na Terra. Trad. Alexandre Raposo e Ulisses Teixeira. Editora Intrínseca, 2021 (com adaptações).
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