Magna Concursos
2317231 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: PGE-RS
Provas:

Nos nossos primeiros anos de vida, nossos pais e cuidadores não se importam muito com o que fazemos. A nossa existência, por si só, é o bastante para nos garantir afeto incondicional. Arrotamos durante a refeição, gritamos com toda a força, não ganhamos dinheiro algum e não temos amigos importantes – ainda assim somos valorizados.

Mas chegara à idade adulta significa assumir nosso lugar ao sol em um mundo dominado por pessoas indiferentes e esnobes, cujo comportamento está no cerne da ansiedade causada pelo desejo por status. Embora alguns amigos venham a prometer não nos rejeitar mesmo que nos desgracemos e declaremos falência (e, dependendo do dia, podemos até acreditarb neles), é devido a atenções esparsas dos esnobes que nos mantemos.

Estar em companhia de esnobes pode nos enraivecer e irritar, porque percebemos que aquilo que somos verdadeiramente – isto é, o que somos sem levar em conta o nosso status – exerce pouquíssima influência no comportamento deles em relação a nós. Podemos ser dotados da sabedoria de Salomão e da engenhosidade e da inteligência de Ulisses, mas, se não ostentarmos emblemas socialmente reconhecidos de nossas qualidades, nossa existência continuará sendo insignificante para os esnobes.

Essa natureza condicional talvez nos seja dolorosa porque o amor adulto conserva, como protótipo, o amor incondicional dos pais pelos filhos. Nossas primeiras experiências de amor provêm de cuidados que recebemos em uma condição desprotegida, vulnerável. Por definição, os bebês não podem pagar com recompensas mundanas a quem lhes presta cuidados. Se são amados e cuidados é pelo que são – a identidade em seu estado mais despido, mais despojado. Eles são amados por seu caráter descontrolado, barulhento e teimoso – ou apesar dele.

É só quando amadurecemos que a afeição começa a dependerc de realização: ser educado e bem-sucedido durante e após os anos escolares, adquirir distinção e prestígio. Tais esforços podem atraird o interesse dos outros, mas o anseio emocional subjacente não é tanto o de deslumbrar as pessoas com os nossos atos, mas sim o de revivere a sensação de receber mimos constantes e indiscriminados, como quando empilhávamos tijolinhos de madeira no chão da cozinha e tínhamos um corpo rechonchudo e olhos grandes e confiantes.

É indício desse anseio que só o adulador mais inepto admitiria basear uma amizade em sua atração pelo poder ou pela fama. Esses atrativos pareceriam motivos insultantes e efêmeros para sermos convidados para um almoço, porque não fazem parte de nossa identidade verdadeira e irredutível. Podemos perder nossos empregos e ter nossa influência destruída sem que pereçamos ou que nossa necessidade de afeição, originada na infância, seja extinta. Aduladores talentosos, portanto, sabem que devem sugerir que estão interessados estritamente na parte sem status de sua presa, que o carro oficial, os perfis nos jornais ou o cargo de diretoria da empresa são características que apenas coincidem com uma ligação profunda e pura.

Adaptado de: Botton, Alain de. Desejo de status. Porto Alegre: L&PM, 2021.

Identifique a única proposta de substituição de palavra do texto que manteria a gramaticalidade da sentença em que se encontra sem a necessidade de qualquer outra alteração.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas

Técnico de Informática

40 Questões