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A pergunta que me fazem em Porto Alegre
Por David Coimbra
- Eu voltei. E, nesses novos dias da minha velha Porto Alegre, as pessoas me perguntam o
- que estou achando da cidade, como se fosse um forasteiro que a visse pela primeira vez. Mas a
- pergunta, de certa forma, faz sentido. Quem passa muito tempo fora de um lugar conhecido
- surpreende-se, ao retornar, por reparar em coisas que não reparava quando passava por elas
- todos os dias. Se você está acostumado com a paisagem, você não se detém para contemplá-
- la; você simplesmente olha.
- Pois nesses dias, estimulado pela curiosidade dos amigos, não apenas olhei: parei e, muitas
- vezes, surpresa!, admirei. Por exemplo, a franja do Guaíba que começa nos armazéns do cais
- do porto, passa pela torre do Gasômetro e se espreguiça Zona Sul adentro. Vou lhe dizer: é
- linda. Poucas cidades do mundo têm uma fatia de terra grudada a uma porção d'água tão bonita
- quanto essa de Porto Alegre. Tínhamos de cuidar dela como se fosse uma filha pequena, e mimá-
- la, e embelezá-la todos os dias.
- Já a Zona Norte, de onde venho, é mais dura e, estremeço ao admitir, quase sempre feia.
- Mas poderia ser mais bela, e até já foi. O casario germânico do Moinhos de Vento, a Liverpool
- gaúcha que é o IAPI, os prédios açorianos da Cidade Baixa, o maravilhoso Centro Histórico,
- temos tanta coisa boa em toda a cidade, mas o que sinto, tristemente, é que nos embrutecemos.
- É essa a palavra que buscava, era o que queria dizer aos meus amigos: Porto Alegre se
- embruteceu.
- Até os anos 1980 e parte dos 1990, era mais sofisticada, mais alegre e decididamente mais
- leve. Mas foi se transformando aos poucos, pressionada pela miséria que a cercava e se imiscuía
- por suas ruas e praças. Muitas administrações públicas tiveram parcela de culpa nesse processo,
- mas não foi só isso. O que houve foi o estabelecimento de uma mentalidade que confunde pobre
- ... pobreza.
- Vem bem calhar usar esses termos agora, por causa das polêmicas criadas pelas
- declarações de um ex-ministro da Economia. É espantoso como um homem experiente como ele
- não entende que a forma do que se fala pode consagrar ou arruinar o conteúdo do que se fala.
- As imagens que ele emprega para explicar suas ideias são, quase sempre, temerárias. Outro dia,
- suscitou essa confusão que aflige Porto Alegre. Falou, textualmente, o seguinte:
- – O maior inimigo do meio ambiente é a pobreza.
- E o Brasil se levantou de indignação, entendendo que o ministro dissera que os maiores
- inimigos do meio ambiente são os pobres. Ora, pobre é mais do que diferente da pobreza: ele a
- odeia. Tudo o que ele quer é se livrar dela. O pobre não gostaria de ter de jogar dejetos sem
- tratamento nos rios, nem de, vezes, viver em meio ao lixo. Ele só faz assim devido
- pobreza que o oprime. Logo, a pobreza, e não o pobre, é responsável, sim, por muito de ruim
- que ocorre no meio ambiente, no Brasil e também em Porto Alegre. Mas escreverei mais a
- respeito amanhã, quando apontarei o símbolo do que atormenta Porto Alegre. É algo singelo.
- Você pode estar sobre ele agora.
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/david-coimbra/noticia/2020/02/a-pergunta-queme-fazem-em-porto-alegre-ck6qvsasj0hr501mvys0c2dvv.html – texto adaptado especialmente para esta
prova).
Na linha 34, há a ocorrência do nexo “Logo”, que introduz ao trecho o sentido de e poderia ser substituído corretamente por sem causar alterações ao significado original do trecho.
Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas do trecho acima.