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2631326 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: DIRENS Aeronáutica
Orgão: EPCAR
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TEXTO I

Você lerá a seguir trechos – com ortografia atualizada – extraídos do jornal A Gazeta de notícias, da cidade do Rio de Janeiro, que publicou, dos dias 22 a 25 de julho de 1895, a notícia de um assassinato e os desdobramentos da investigação policial sobre o fato.

Dia 22

Às 2 ½ horas da madrugada de ontem, um indivíduo,

que corria da rua da Relação em direção à repartição da

polícia, caiu morto junto à porta principal do edifício,

apresentando no peito um profundo ferimento.

5 Ato contínuo um outro indivíduo, que também se

achava ferido no rosto, parou junto ao cadáver procurando

certificar-se se o indivíduo que ali se achava caído estava

com vida.

Tornando-se o referido indivíduo suspeito, foi

10 imediatamente preso e apresentado ao Sr. Dr. Carijó,

1º delegado auxiliar.

/.../

Ontem pela manhã apareceram no necrotério três

praças da brigada policial, entre os quais se achava

15 Antonio Primeiro, pertencente à 6ª companhia, que

declarou reconhecer o cadáver como o de João Ferreira

da Silva, ex-corneta da brigada policial, de onde teve baixa

há cerca de três meses.

/.../

20_ Silva era casado com Maria Virginia da Costa, com a

qual residia, em companhia de dois filhos menores, na

casinha nº 19 da estalagem da rua do Rezende, nº 109.

Segundo nos informou Maria Virginia, seu marido era

homem pacato, de bons costumes e trabalhava como

25 servente de pedreiro em umas obras da rua Francisco

Muratori.

Disse mais que seu marido havia estado no botequim

no 64 da referida rua, ponto de reunião de indivíduos

suspeitos, não regressando mais à casa.

Dia 23

30 O Sr. Dr. Carijó, 1º delegado auxiliar, auxiliado por

seu escrivão o Sr. major Luiz de Andrade, já descobriu o

fio do misterioso assassinato de João Ferreira da Silva,

perpetrado na rua da Relação, na madrugada de 21 do

corrente mês.

35 Já depuseram no inquérito muitas testemunhas, entre

as quais se acham os dois soldados de polícia que

rondaram a referida rua e a dos Inválidos, José Teixeira da

Silva, Balbino Ferreira de Oliveira, Pedro da Costa, Manuel

de Souza e Silva, Maria Regina da Costa e outras pessoas

40 que estiveram com o falecido no botequim nº 64 da rua do

Rezende, de onde saíram em serenata.

A autoridade policial espera em breve descobrir o

verdadeiro assassino para entregá-lo à ação da justiça.

Segundo trata C. Lombroso* em seu livro intitulado

45 L´Uomo delinquente, publicamos em seguida as tatuagens

verificadas no corpo de Manuel de Sousa e Silva pelos

Drs. Moraes Brito e Cunha Cruz.

Manuel de Sousa e Silva, de cor branca, com 21 anos

de idade, português, solteiro, morador à rua

50 Resende, nº 109.

Apresenta uma ferida incisa na região tenar**, dois

centímetros de extensão, dirigida de cima para baixo, de

dentro para fora, na mão esquerda; apresenta, entre

outras, as seguintes tatuagens: um crucifixo na face

55 anterior do braço esquerdo; um signo de Salomão, na face

externa do mesmo braço; as iniciais I. M. C. (Isaura Maria

da Conceição) isto no dorso da mão do mesmo lado; no

dorso da mão direita um signo de Salomão; na face

anterior do antebraço, do mesmo lado um coração, com

60 ápice para baixo, atravessado por uma seta, e um punhal

em cruz; na área representada pelo coração, as iniciais M.

S. S. (Manuel de Sousa e Silva); por baixo dessas iniciais,

e na mesma área, as iniciais S. E. S. (Sara Escaldina dos

Santos); por sobre o coração, na mesma face do braço,

65 uma estrela; sobre a estrela, uma fita com as iniciais M. S.

F. (Maria da Silva Fidalga); por sobre a fita as iniciais M. J.

R. C. (Maria Joaquina Rosa da Conceição); no peito, na

região precordial, um coração atravessado por dois

punhais em cruz. Uma figura de mulher e outra de homem,

70 em colóquio amoroso, na face anterior do braço direito.

*Cesare Lombroso (1835-1909) foi criminologista italiano, autor entre outros livros de L’uomo delinquente (1876), e muito influente na época, embora em boa parte desacreditado hoje. Achava que a criminalidade era hereditária, e que os criminosos podiam ser reconhecidos por certos traços e defeitos físicos, inclusive o uso excessivo de tatuagem.

** tenar: palma da mão.

Dia 24

Sobre o assassinato de João Ferreira da Silva,

perpetrado na rua da Relação, temos a acrescentar o

seguinte:

O Sr. Dr. Carijó, 1º delegado auxiliar, conseguiu

75 descobrir e prender todos os indivíduos que, na noite do

crime, estiveram em serenata com a vítima /.../.

O Sr. Dr. Souza Lima, lente* da Academia de

Medicina, requisitou ontem do Sr. Dr. Carijó a presença de

Manuel de Souza e Silva, o homem tatuado de que

80 tratamos ontem na nossa notícia.

À 1 hora da tarde, na aula de medicina legal, fez uma

pequena preleção aos seus alunos sobre os indivíduos

tatuados de que trata o professor Lombroso,

apresentando-lhes Souza e Silva como um dos indivíduos

85 que deviam estar sempre sob as vistas da polícia por isso

que os desenhos de tatuagem que apresentava no corpo

eram descritos pelo sábio escritor italiano em seu livro

L´Uomo delinquente, os quais demonstraram ser uma

cópia fiel dos que existiam no citado livro.

* lente: professor de escola superior ou secundária.

Dia 25

90 O Sr. Dr. Carijó, prosseguindo no inquérito sobre o

assassinato de João Ferreira da Silva, chegou à

conclusão de que o autor do crime foi Manuel de Souza e

Silva, vulgo Nené, o qual já cumpriu pena há anos

passados por crime de morte.

95 Nené é o indivíduo que, conforme noticiamos,

apresenta o corpo cheio de tatuagens.

/.../

Pelos depoimentos das testemunhas, vê-se que o

móvel do crime foram os ciúmes de Nené por causa de

100 uma mulher.

(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)

No Texto I, na conclusão do inquérito, que atribuiu a autoria do crime a Manuel de Souza e Silva, teve papel decisivo a

 

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