Rio de Janeiro, 2 de março de 1869.
Minha Carola.
Já a esta hora deves ter em mão a carta que te mandei
hoje mesmo, em resposta às duas que ontem recebi. Nela foi
explicada a razão de não teres carta no domingo; deves ter
recebido duas na segunda-feira.
Queres saber o que fiz no domingo? Trabalhei e estive
em casa. Saudades de minha C., tive-as como podes imaginar,
e mais ainda, estive aflito, como te contei, por não ter tido
cartas tuas durante dois dias. Afirmo-te que foi um dos mais
tristes que tenho passado.
Contou-me hoje o Araújo que, encontrando-se, num
dos carros que fazem viagem para Botafogo e Laranjeiras, com
o Miguel, este lhe dissera que andava procurando casa por ter
alugado a outra. Não sei se essa casa que ele procura é só para
ele ou se para toda a família. Achei conveniente comunicar-te
isto; não sei se já sabes alguma coisa a este respeito. No
entanto, espero também a tua resposta ao que te mandei dizer
na carta de ontem, relativamente à mudança.
Dizes que, quando lês algum livro, ouves unicamente
as minhas palavras, e que eu te apareço em tudo e em toda a
parte? É então certo que eu ocupo o teu pensamento e a tua
vida? Já mo disseste tanta vez, e eu sempre a perguntar-te a
mesma cousa, tamanha me parece esta felicidade. Pois, olha; eu
queria que lesses um livro que eu acabei de ler há dias; intitula-
se: A Família. Hei de comprar um exemplar para lermos em
nossa casa como uma espécie de Bíblia sagrada. É um livro
sério, elevado e profundo; a simples leitura dele dá vontade de
casar.
Faltam quatro dias; daqui a quatro dias terás lá
a melhor carta que eu te poderei mandar, que é a minha própria
pessoa, e ao mesmo tempo lerei o melhor...
MACHADINHO
Museu da República. Arquivo histórico. Versão digitada do manuscrito original. Internet: www.revistaepoca.globo.com (com adaptações).