Texto 2
A obra D. Guidinha do Poço conta a história de D. Margarida Reginaldo de Sousa Barros — conhecida como Guida ou Guidinha —, herdeira do Capitão-Mor Reginaldo Venceslau. Depois da morte do pai, ela se casa com o Major Joaquim Damião de Barros, o Major Quim, dezesseis anos mais velho do que ela. Embora tivessem casa na vila, fixaram residência na fazenda Poço da Moita, herdade de Margarida. Depois de alguns anos de casados, Margarida se apaixona por Secundino, jovem praciano, sobrinho do marido. Quando o Major Quim descobre a traição, pede o divórcio, que Guida não aceita. O Major deixa-a na fazenda e vai morar na casa da Vila. A mulher, então, contrata um capanga de nome Naiú para matar o marido. O caboclo faz o serviço, mas, quando é preso, revela que fora D. Margarida a mandante do homicídio.
O capítulo que você lerá é o último da obra, quando se dá a prisão de D. Guidinha do Poço.
A diligência do Poço da Moita não voltou senão no dia seguinte, o sol bem alto, apenas trazendo a presa mandatária, que o cúmplice Secundino tinha desaparecido. Ficou lá, todavia, cocando, uma escolta disfarçada.
Guida vinha na marreca. A um lado e outro os soldados e paisanos da escolta, estes armados de garrucha e faca, uns montados e outros a pé. Apesar da indignação e assombro públicos, temiam as autoridades que no caminho lhes viessem tomar a presa.
Guida entrou sobranceira pela rua Grande, o cavalo numa estrada alta. A chapelina um tanto para trás, deixando a testa quase no sol. A saia de montaria, de bretanha, arfava ao vento, produzindo uma irritação estranha aquele pano branco na alma enlutada da população. Guida olhava a turba com admiração, que ao povo parecia petulância e, por vê-la açoitar o cavalo, diziam que ela acenava com o chicote para ele...
De repente, por uma terrível associação de ideias, uma voz exclama:
— Olha a Naiú! Olha a Naiú! Lá vai a Naiú! Outro repete: Olha o Naiú! Mais outro, e o nome do assassino reles batia como uma chuva nos ouvidos da ilustre herdeira dos Reginaldos.
O vigário e o Juiz de Direito assistiram-lhe ao apear, à porta da prisão, para evitar algum desacato à pobre senhora.
Guida, com ar desconfiado, sorria para eles, velhos comensais dos bons tempos:
— Deixe, doutor. Deixe, seu vigário. Este bom povo hospitaleiro da minha terra!
O vigário, retirando-se com o magistrado, ia dizendo pelo caminho:
— Vê, meu amigo? Viu como surdiu aquele baixo qualificativo? Como essa canalha chamava Naiú aquela que para eles era mais do que, para nós outros, a mulher do Pedro II?
— É simples, redarguia o juiz. O crime nivela, como a virtude.
O nobre órgão da Justiça, na promoção, argumentou com a impassibilidade da ré ante o assassinato de seu marido, ao passo que derramou abundantes lágrimas e fez lamentações — descrevia ele, por causa da grande crueldade de prenderem ao Secundino.
Era verdade. A Guida supunha o Secundino longe, longe, afastando-se daquela terra ingrata, como as pombas avoantes, do modo por que das grades da prisão, ela as via lá se irem, a fazer apenas uma trêmula manchazinha escura no céu alto.
Manuel de Oliveira Paiva. Dona Guidinha do Poço. p. 125-126. Texto adaptado.
A personagem Margarida é referida por várias palavras ou expressões. Observe o que se diz sobre esses elementos referenciais e assinale com V o que for verdadeiro e com F o que for falso.
( ) A expressão “a presa mandatária”, a primeira a aparecer no texto, antecipa a aparição de Guida como a assassina e indica uma posição tendenciosa do enunciador.
( ) O antropônimo “Guida”, que já havia substituído a expressão “a presa mandatária”, é substituído pela expressão “a presa”, o que reforça a estratégia de apresentar Guida, de antemão, como uma criminosa.
( ) No texto, a palavra “presa” pode assumir também o sentido de “coisa ou pessoa que alguém ou algo subjuga; coisa ou pessoa de que(m) alguém ou algo se apodera”.
( ) “Presa” vem substituída por “Naiú”, o nome do assassino real. Isso iguala Guida àquele que, por uma ordem sua, apunhalou o Major.
( ) O vocábulo “Naiú” foi substituído pela expressão “(a)a pobre senhora”. Essa substituição pode ser entendida ou como uma expressão da compaixão de um homem da Igreja ou como uma expressão de ironia do enunciador.
Está correta, de cima para baixo, a seguinte sequência: