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2479905 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: FEPESE
Orgão: MPE-SC

Texto 3

Os segredos

O que acontece às vezes com minha ignorância é que ela deixa de ser sentida como uma omissão e se torna quase palpável, assim como a escuridão, a gente às vezes parece que pode ser pegada. Quando é sentida como uma omissão, pode dar a sensação de mal-estar, uma sensação de não estar a par, enfim de ignorância mesmo. Quando ela se torna quase palpável como a escuridão, ela me ofende. O que ultimamente tem-me ofendido – e é uma ofensa mesmo porque dessa eu não tenho culpa, é uma ignorância que me é imposta – o que tem ultimamente me ofendido é sentir que em vários países há cientistas que mantêm em segredo coisas que revolucionariam meu modo de ver, de viver e de saber. Por que não contam o segredo? Porque precisam dele para criar novas coisas, e porque temem que a revelação cause pânico, por ser precoce ainda.

Então eu me sinto hoje mesmo como se estivesse na Idade Média. Sou roubada de minha própria época. Mas entenderia eu o segredo se me fosse revelado? Ah, haveria, tinha de haver um modo de eu me pôr em contato com ele.

Ao mesmo tempo estou cheia de esperanças no que o segredo encerra. Estão nos tratando como criança a quem não se assusta com verdades antes do tempo. Mas a criança sente que vem uma verdade por aí, sente como um rumor que não sabe de onde vem. E eu sinto um sussurro que promete. Pelo menos sei que há segredos, que o mundo físico e psíquico seria visto por mim de um modo totalmente novo – se ao menos eu soubesse. Eu tenho que ficar com a tênue alegria mínima do condicional “se eu soubesse”. Mas tenho que ter modéstia com a alegria. Quanto mais tênue é a alegria, mais difícil e mais precioso de captá-la – e mais amado o fio quase invisível da esperança de vir a saber.

LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. p. 32-33.

No que se refere a aspectos linguísticos do texto 3, considere as afirmativas abaixo.

1. Em “Quando é sentida como uma omissão, pode dar a sensação […]. Quando ela se torna quase palpável como a escuridão, ela me ofende.”, encontram-se evidências de variação na forma de realização do sujeito.

2. Alguns padrões de uso podem ser identificados no texto, tais como preenchimento de sujeito de primeira pessoa do singular e uso de clíticos.

3. No primeiro parágrafo, as construções “O que ultimamente tem-me ofendido” e “o que tem ultimamente me ofendido” evidenciam o uso variável de ordenação do pronome oblíquo.

4. A conjunção “mas”, em cada um dos empregos – “Mas entenderia eu o segredo […] (segundo parágrafo); “Mas a criança sente […]” e “Mas tenho que ter modéstia […] (terceiro parágrafo) –, estabelece relações lógico-semânticas de oposição ou adversidade entre dois fatos.

5. No primeiro parágrafo, em “de ignorância mesmo” e “é uma ofensa mesmo”, a palavra “mesmo” atua anaforicamente como instrumento de coesão textual, podendo ser chamada de determinante remissivo.

Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas.

 

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