A cadeira do dentista
Fazia dois anos que não me sentava numa cadeira de dentista. Não que meus dentes estivessem por todo esse tempo sem reclamar um tratamento. Na única ocasião em que botei o pé no gabinete do odontólogo – tem uns seis meses –, quando ele me informou o preço do serviço, a dor transferiu-se do dente para o bolso.
– Não quero uma dentadura em ouro com incrustações em rubis e esmeraldas – esclareci –, só preciso tratar o canal.
– É esse o preço de um tratamento de canal! Adiei o tratamento. Tenho pavor de dentista. Desta vez, porém, não tive como escapar. Os dentes do lado esquerdo já tinham se transformado em meros figurantes dentro da boca. Ao estourar o pré-molar do lado direito, fiquei restrito à linha de frente para mastigar maminhas e picanhas. Experiência que poderia ter dado certo, caso tivesse algum jeito para esquilo. A enfermeira convocou-me na sala de espera. Acompanhei- a e entramos os dois no gabinete do dentista.
– Sente-se – disse ela, apontando para a cadeira.
– Sente-se a senhora – respondi com educada reverência –, ainda sou do tempo em que os cavalheiros ofereciam seus lugares às damas.
– O senhor é o paciente!
O dentista surgiu com aquele ar triunfal de quem jamais teve cárie. Foi logo ordenando:
– Abra a boca. Tentei, mas a boca não obedeceu aos meus comandos.
– Não vai doer nada!
– Todos dizem a mesma coisa – reagi.
– Abra a boca! – insistiu ele.
Abri a boca. Numa cadeira de dentista, sinto-me tão frágil quanto um recruta diante do sargento do batalhão.
– A anestesia vai impedir a dor – disse ele, armado com uma seringa.
– E eu vou impedir a anestesia – respondi duro, segurando firme no seu pulso.
Ele fez pressão para alcançar minha pobre gengiva. Permaneci segurando seu pulso. Ele apoiou o joelho no meu baixo ventre. Continuei resistindo, em posição defensiva. Ele subiu em cima de mim. Miserável! Gemi quase sem forças.
– Não pense que o senhor vai me anestesiar como anestesia qualquer um – disse, dando-lhe um tapa na mão. A seringa voou longe e escorregou pelo assoalho. Corremos os dois para alcançá-la, caímos no chão, e cheguei antes. A situação se invertera: eu estava por cima. – Agora sou eu quem dá as ordens – vociferei, rangendo os dentes. – Abra a boca!
– Mas... não há nada de errado com meus dentes.
– A mim você não engana. Todo mundo tem problemas dentários. Vamos, abra essa boca!
– Não, não, não. Por favor – implorou. Morro de medo de anestesia.
Era o que eu suspeitava. É fácil ser corajoso com a boca dos outros. Quero ver continuar dentista é na hora de abrir a própria boca. Levantei-me, joguei a seringa para o lado e disse-lhe, cheio de desprezo:
– Você não passa de um paciente!
(Carlos Eduardo Novaes. A cadeira do dentista e outros crônicas. São Paulo: Ática, 2007)
No primeiro parágrafo do texto, a frase – Não que meus dentes estivessem por todo esse tempo sem reclamar um tratamento. – significa que o narrador