
...por favor, não tentem defender nosso português de estrangeirismos: a língua não precisa ser defendida. Ela é soberana. Ela é flexível. Ela é viva. Nenhum gramático ou legislador, brilhante ou tacanho, poderá botar essa dama em camisa de força, nem a conter num regime policialesco. Ela continuará sua trajetória, talvez sacudindo a cabeça diante das nossas desajeitadas tentativas de controlá-la. Como dirá qualquer bom professor de português, ou qualquer linguista dedicado, estudioso, uma parcela imensa dos termos que hoje usamos, que por muito usados pela classe culta foram dicionarizados —!$ ^{III)} !$ o dicionário sempre corre atrás da realidade —!$ ^{III)} !$ , começou como estrangeirismo. Não preciso citar, mas cito, garagem do francês, futebol do inglês, coquetel da mesma forma. A língua incorpora esses termos se são úteis, e os adapta ao seu sistema. Botou o "m" final em miragem, por exemplo, porque no nosso sistema as palavras não terminam em "age".
Muitos termos não podem ser traduzidos: quem diz isso é esta velha tradutora que dedicou a isso milhares de horas de sua vida. E não é possível formar frases decentes, fluidas, claras, expressivas como devem ser as frases, se a cada "estrangeirismo" tivermos de fazer um rodeio, uma explicação da palavra intraduzível. Isso, além do mais, nos colocaria na rabeira do mundo civilizado e globalizado, onde palavras - como objetos de bom uso - circulam de um lado para outro, pousam aqui ou ali, adaptam-se, ou simplesmente passam. Quando não passam, é porque são necessárias, e acabam colocadas entre aspas ou em itálico. Línguas altamente civilizadas usam "estrangeirismos" livremente, sem culpa nem preconceito, como fator de expressividade. Isso nem as humilhou, nem as perverteu: ficaram enriquecidas. Nós é que precisamos lutar contra uma onda terceiro-mundista!$ ^{I)} !$, uma postura de inferioridade que nos faz gastar energias que poderiam ser aplicadas em algo urgente como um orçamento vinte vezes maior para a educação do nosso povo.

Das afirmações abaixo,
I) Na frase Nós é que precisamos lutar contra uma onda terceiro-mundista,... , é que poderia ser retirada, sem alterar o sentido, porque se trata, apenas, de uma expressão de realce.
II) No segmento A língua incorpora esses termos se são úteis, e os adapta ao seu sistema., as palavras sublinhadas estabelecem, respectivamente, uma relação de condição e de adição.
III) Há um equívoco no uso dos travessões, que deveriam ser substituídos por parênteses.