Páginas sem glória
A história maior, incluindo a esportiva, não precisa de mais testemunhos, pois aí estão, documentando-a, para além do boca a boca entre gerações, os arquivos todos, os livros e as revistas ilustradas, os filmes e depois os vídeos, os jornais microfilmados nas bibliotecas públicas, os DVDs e a Internet. Mas a história dita menor, quem a documentará? Quanta coisa digna de registro não se carrega para o túmulo: imagens e sensações inesquecíveis, conhecimentos adquiridos depois de longa observação e aprendizado, grandes ideias, sentimentos fundos que nunca foram passados para o papel? No futebol, quantas jogadas espetaculares ou de fina técnica, executadas em treinos, partidas preliminares ou até na várzea, para uma plateia ínfima, embora muitas vezes seleta naquele campo específico do saber?
(...)
Quanto a meu irmão e eu, estávamos em uma idade em que (...) a mente, não estando entupida com o entulho da vida adulta, arquiva o verdadeiramente memorável no detalhe e no conjunto, ainda que o tempo tenha vindo a transformá-lo em uma substância mítica e estilizada, jogadas feitas agora de palavras, mas que me permitem apresentar aos aficionados alguns poucos desses lances, sem muita preocupação com a cronologia, apenas para que se possa ter noção da coisa.
Sérgio Sant’Anna. Páginas sem glória. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 107-8 (com adaptações).
Considerando o fragmento da novela Páginas sem glória, do escritor brasileiro Sérgio Sant’Anna, julgue o item seguinte.
Em “Mas a história dita menor, quem a documentará?”, a forma verbal “documentará” apresenta dois complementos, um direto e outro indireto.