Um povo heroico
Somos bilhões de formiguinhas aflitas correndo de um lado para o outro pelo globo terrestre. Fazendo guerra, fazendo amor, fazendo filho, fazendo maldade, fazendo coisas belas e boas, fazendo loucuras, não fazendo nada, mas sempre nos achando importantes. Tão frágeis, tão ineptos, e tão grandiosos somos, produzindo maravilhas de ciência, tecnologia e arte, e gestos humanos de bondade. Mas também matamos entusiasticamente nas chamadas guerras, em geral a distância: do inimigo sem rosto, não se ouvem os gritos. Meninos continuam sendo mandados para morrer na batalha. Complexo formigueiro, este nosso.
Mas um dia a mãe Terra resmunga, se remexe, dá de ombros, e nos afogamos em lama, em mar, em deslizamentos, em fendas, em desabamentos. Terremoto, maremoto, furacão. Assim, um terremoto gigantesco, seguido de um maremoto tremendo, destrói parte do Japão. Poucas vezes, ignorante que sou, eu tinha me dado conta de que um país tão importante, poderoso, guerreiro, com tal tecnologia, ciência tão adiantada e tão refinada arte, é um conjunto de ilhas. Mas a valentia de seu povo o torna um continente imenso.
As próprias vítimas dizem que devem ser os primeiros a se ajudar mutuamente, porque sabem quanto o outro está sofrendo com as perdas de familiares e de tudo o que construíram.
Milhares de desaparecidos e mortos, que talvez nunca sejam encontrados, dormem sob metros de terra e destroços, ou no fundo do oceano, para onde as gigantescas ondas os levaram ao retornar de sua viagem sinistra. Nos que ficaram, lágrimas, mas compostura. Rostos desfigurados pelo sofrimento, mas cuidado com a necessidade do vizinho, ou do desconhecido. Religiosidade, filosofia, disciplina, trabalho, tenacidade, coragem heroica, respeito e amor pela sua terra, seu lugar: não vi ainda maior exemplo de vida e de conduta.
(Revista Veja, Edição 2210, 30/03/11, Lya Luft, com adaptações)
Assinale a afirmativa que apresenta sujeito simples: