Estará o ódio se tornando o link de nossa sociedade? Uma sociedade se funda em laços sociais.
Laços sociais podem ser do afeto ou do interesse. Estamos juntos em sociedade porque, apesar de nossas diferenças quanto aos meios que um partido queira adotar, temos algum acordo sobre os fins. Pessoas que amam seu país divergem quanto ao meio de torná-lo próspero, mas todas desejam a prosperidade.
Porém, quando meu amor vira violência, é porque quero a vitória do meu grupo, não importam os meios. Quem sente e age assim quer destruir o outro. Estaremos vivendo um tempo em que, para ser eu, preciso destruir?
O filósofo Thomas Hobbes dá três causas para a violência entre os homens: a primeira, o desejo de lucro. Uns, por serem pobres ou gananciosos, atacam quem tem, para tirar seus bens. Mas essa causa só gera alguma violência, não basta para torná-la total. A segunda causa é inversa à primeira, e pior que ela: os que têm bens atacam preventivamente quando temem ser roubados. No primeiro caso, temos uma violência original, como a do adolescente que furta um celular; no segundo, temos uma violência em segundo grau, muitas vezes preconceituosa, como a de linchadores e justiceiros.
O que generaliza a violência não é a primeira causa, a ganância dos necessitados ou maus – mas a precaução dos que têm a perder e assim agem preventivamente, querendo impedir um ataque que talvez jamais ocorresse.
No mundo dos direitos, é melhor soltar um culpado do que punir um inocente. Na guerra, é melhor matar um inocente do lado inimigo do que correr o risco de morrer. A violência das “pessoas de bem” pertence à guerra, não ao mundo da lei. Assim, pessoas indignadas com a violência urbana cometem violências de segundo grau, que atentam contra a vida. Essa violência preventiva é a mais preocupante, pois representa a falência do Estado e torna o conflito absoluto.
Há uma terceira causa para a violência, diz Hobbes. Essa causa se chama honra, palavra que hoje usamos em sentido positivo, mas que designa a imagem pública do valor de alguém. Isso pode ser pior do que os conflitos por bens, porque nesses há uma certa racionalidade: quero ter mais.
Quantifico o produto do roubo. Mas a honra não se mede. A luta pela honra é de morte. Essa causa é a mais insondável, a menos previsível.
Na política atual, a palavra é usada como arma. A disposição ao diálogo despencou. A violência associa dois fatores que considero próximos: ignorância e falta de educação. Reconheço que toda pessoa educada é ignorante em algum assunto, mas a pessoa mal-educada é ignorante em quase tudo. Como se pode ter a sutileza de conhecer bem as coisas, sem a sutileza de ouvir o outro? Por isso as redes sociais não se tornaram ágoras contemporâneas, espaços onde o povo discute a coisa pública, mas sim campos de guerra.
Imaginamos que a violência é dos outros, mas o preocupante mesmo é a extensão da reação das pessoas que se consideram de bem. A perda da proporção é a perda da razão. Proporções e medidas são o que nos permite viver em sociedade. Estamos a um passo de não conseguir mais a convivência, a não ser com nossos muito próximos, com nossos clones. O que, na mais complexa sociedade da história, é o fechamento de cada um de nós no condomínio, na torcida, no grupo social – a incapacidade de explorar o vasto mundo diferente que se encontra nas portas de saída.
RENATO JANINE RIBEIRO Adaptado de estadao.com.br, 01/03/2014.
O título do texto de Renato Janine Ribeiro foi omitido.
A expressão que melhor contempla a ideia central do texto, servindo de título, é: