Poucos objetos despertam, como o livro, o sentimento da absoluta propriedade. Caídos em nossas mãos, os livros se tornam nossos escravos escravos, sim, porque de matéria viva, mas escravos que ninguém pensaria em libertar, porque feitos de folhas mortas. Como tal, são submetidos aos piores tratamentos, frutos dos amores mais loucos ou de terríveis furores. E que eu te dobre os cantos das páginas (oh! Que ferida, cada vez, essa visão da página dobrada! “mas é pra saber onde eu estoooooooou!”) e que te ponha minha xícara de café sobre a capa, essas auréolas, esses relevos de farelos, essas manchas de óleo solar... e que eu deixe um pouco por toda parte a impressão do meu polegar, aquele que enche meu cachimbo enquanto leio... e essa obra encadernada secando vergonhosamente sobre o radiador depois de ter caído no seu banho (“seu banho, minha querida, mas meu Swift!”) e essas margens rabiscadas de comentários felizmente ilegíveis, esses parágrafos aureolados de marcadores fluorescentes... esse livro definitivamente enfermo por ter ficado uma semana inteira dobrado sobre a lombada, esse outro pretensamente protegido por uma imunda capa de plástico transparente com reflexos petrolíferos... essa cama desaparecendo sob uma banquisa de livros espalhados como pássaros mortos... essa pilha de livros de bolso abandonados à umidade do sótão... esses infelizes livros da infância que ninguém mais lê, exilados numa casa no campo onde ninguém mais vai... e todos esses outros, sobre o cais, vendidos como saldo aos revendedores de escravos...
Tudo, nós submetemos os livros a tudo. Mas é só a maneira como os outros os maltratam que nos entristece. (...)
Desde que um livro caia em nossas mãos, ele é nosso, exatamente como dizem as crianças:”É meu livro”... parte integrante de mim mesmo. É sem dúvida a razão pela qual dificilmente devolvemos os livros que nos emprestam. Não é exatamente um roubo... (não, não, não somos ladrões, não...), digamos, um deslizamento de propriedade, ou melhor, uma transferência de substância: o que era do outro sob os olhos dele torna-se meu enquanto meus olhos o devoram e, palavra, se gostei do que li, sinto certa dificuldade em “devolvê-lo”.
Falo, aqui, da maneira como nós, os particulares, tratamos os livros. Mas os profissionais não fazem melhor. E que eu corte o papel rente às palavras para que minha coleção de bolso seja mais rentável (texto sem margem, de letras espremidas pela compactação) ou que faça inchar como uma bexiga esse pequeno romance, para fazer o leitor acreditar que está gastando bem seu dinheiro (texto afogado, frases estonteadas por tanta brancura e que cole “capas” do tipo “cheguei” cujas cores e títulos enormes gritam a cento e cinquenta metros: “você me lu? Você me leu?” E que eu fabrique exemplares do Círculo do Livro em papel esponjoso e capa cartonada recheado de ilustrações debiloides, e que pretenda fabricar “edições de luxo”, sob o pretexto de que ilumino um falso couro com uma orgia de dourados...
(PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco,1993.p.135-7)
A passagem em que ocorre desvio do registro da língua padrão é: