A gravidade da situação que hoje atravessamos não se deve unicamente ao fato de que temos de lidar com a ameaça da destruição de nossos recursos mais vitais: da água, do ar, das espécies vegetais e animais. O momento é grave, de modo mais essencial, porque o homem esqueceu a riqueza do que pode significar ser um ser humano. A tentativa de afirmar um poderio sem limites sobre as coisas — o projeto de estabelecer-se como tirano da vida — redunda em seu isolamento, em rompimento do diálogo com a natureza, em perda da referência da terra como abrigo.
Em outro nível, esse projeto está intimamente ligado aos ritmos da sociedade industrial. Cria-se a ilusão de que, embora existam desigualdades sociais evidentes demais para serem escamoteadas, todos os homens têm igual poderio sobre a natureza, de que todos, até os mais subjugados, têm o poder de subjugar as forças da natureza. Assim, o desequilíbrio ecológico e a planetarização de uma sociedade que, desenvolvendo-se sob a ideologia do individualismo e da pretensa igualdade de todos, caminha hoje para uma tecnocracia totalitária, são aspectos de um mesmo fenômeno.
Nancy M. Unger. Crise ecológica: a deserção do espaço comum. Revista Educação e Realidade, n. 34(3), set./dez. 2009, p.147-155 (com adaptações).
Tendo como referência o texto precedente, da filósofa Nancy Mangabeira Unger, julgue o próximo item.
Segundo a referida filósofa, o processo de destruição dos recursos naturais é resultado da riqueza de sermos seres humanos, que, por sua vez, nos distancia da natureza.