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A literatura revela que são poucos os estudos que auxiliam na compreensão das maternidades como realidades clínicas, ou seja, como espaços simbólicos de interações, poderes e saberes envolvidos nos processos terapêuticos do cuidar em enfermagem. Especialmente, quando se coloca em relevo a compreensão da cultura como um conceito antropológico que é inseparável da atenção ao processo do nascimento e, notadamente, quando se analisa a influência que este conceito tem para a prática da enfermagem.
Recortando a realidade a partir de uma tese de doutorado que resultou na elaboração de uma etnografia em Alojamento Conjunto (AC) de uma instituição pública, procurou-se investigar as percepções que as trabalhadoras de enfermagem dessa unidade têm sobre a cultura durante o processo de cuidar das famílias que vivenciam o nascimento no hospital. O AC, considerado como uma realidade clínica, é interpretado, neste contexto, como um espaço simbólico, onde vários atores sociais se relacionam e onde as práticas e os saberes da enfermagem e das famílias relacionados ao nascimento são um campo fértil de aproximações e distanciamentos. O estudo configurou-se como pesquisa de natureza qualitativa e foi desenvolvido em uma unidade de AC de uma maternidade pública brasileira. Teve como informantes 19 trabalhadoras de enfermagem de nível médio.
As trabalhadoras interpretam a rede de símbolos e significados das famílias como sendo "crenças", um termo amplamente utilizado na cultura organizacional como referência a um conjunto de conhecimentos e práticas que faz parte do sistema familiar ou popular de cuidado saúde e que não mantém qualquer tipo de aproximação com o modelo profissional. A definição se concentra na interpretação de que a cultura relaciona-se com crenças, valores e práticas contrastados de modo evolucionista e fruto de tradições, feixes de hábitos ou excentricidades ultrapassadas.
Tal representação aparenta ligação com comunidades “ignorantes” (independente do nível de escolaridade), no sentido que não têm acesso à “modernidade” e comumente distantes dos grandes centros urbanos, como as rurais e indígenas, por exemplo, haja vista o depoimento de uma das trabalhadoras: “A índia, a mestiça e a lavradora têm crenças que são bem interessantes”. Várias trabalhadoras, ao interagirem com as famílias, além de restringirem cultura à excentricidade e, em consequência, à arbitrariedade, ligam seus símbolos e significados a respeito do nascimento com valores tradicionais, concebidos por elas como estando muito próximos de adjetivos como “rígidos” e “estagnados”. Também há, na rede simbólica das trabalhadoras, uma forte tonalidade direcionada consolidação de identidades culturais. Não é raro, por exemplo, que alguns rituais desenvolvidos pelas famílias sejam entendidos como “coisa de gente da roça” ou “as índias são assim mesmo”, numa reação perigosa do ponto de vista antropológico, já que sujeita famílias quase que de imediato a um rótulo comportamental.
Os resultados principais da pesquisa mostram que a cultura das famílias é interpretada como algo residual, irrelevante e como obstáculo a ser superado. Apresenta-se como um conhecimento que tem pouco ou nenhum status, principalmente se equiparado com o conhecimento biomédico necessário para cuidar de mulheres e recém-nascidos durante o nascimento.
Adaptado de: MONTICELLI, M.; ELSEN, I. A cultura como obstáculo: percepções da enfermagem no cuidado às famílias em alojamento conjunto. Texto contexto - Enferm. vol. 15, n. 1 Florianópolis, jan./mar. 2006.
Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas, nesta ordem.