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2478485 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: FEPESE
Orgão: MPE-SC

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

ALVES, Rubem. A complicada arte de ver. Disponível em:

<http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u947.shtml> Acessado em 31 de março de 2014.

Considerando aspectos linguísticos do texto, identifique se são verdadeiras ( V ) ou falsas ( F ) as afirmativas abaixo.

( ) Em “Eu fiquei em silêncio aguardando que […]” (primeiro parágrafo) e “Ela se calou, esperando o meu diagnóstico” (segundo parágrafo), o gerúndio introduz orações subordinadas adverbiais temporais reduzidas.

( ) O segmento “Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as ‘Odes Elementales’, de Pablo Neruda.” (segundo parágrafo) é constituído por três orações coordenadas cuja ordem reflete a sequência cronológica dos eventos.

( ) No segundo parágrafo, os pronomes ela (“ela se calou”), lhe (“lhe disse”), a (“a acometeu”) e você (“você não está louca”) remetem ao mesmo referente.

( ) Em “Isso é estranho” (terceiro parágrafo), o pronome demonstrativo retoma “ver”.

( ) Em “sabia disso” e “sei disso” (quarto parágrafo), as duas ocorrências de “disso” estabelecem a mesma referência, sendo, portanto, correferenciais.

Assinale a alternativa que indica a sequência correta, de cima para baixo.

 

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