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1598289 Ano: 2019
Disciplina: Português
Banca: CEPUERJ
Orgão: Pref. Queimados-RJ
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Texto IV


LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA

Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade


RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de

uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de

várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a

exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o

5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?

Cai “mulata” por seu histórico racista?

Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico

altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.

Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de

10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações

para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.

— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em

uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.

O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de

15 descriminalização do português falado:

— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o

R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.

Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.

Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,

20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e

viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de

“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:

— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando

peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está

25 pronta para rever esse vocabulário.

[...]

O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera

todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:

— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas

falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo

30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que

“homossexualidade” é o certo. Ótimo.

Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.

Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”

aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e

35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.

Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras

chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até

bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.

— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —

40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua

ou desaparecerá. [...]


Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com

Acesso em: 5 ago. 2019.


De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53.

Em “[...]cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo ‘homossexualismo’ por remeter à doença. Eu estava errado.” (l. 29 - 30), o termo destacado pode ser substituído, sem prejuízo de sentido, por:

 

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