A biblioteca silenciosa
Depois da silenciosa capela gelada onde as imagens dos santos trocavam de lugar umas com as outras e o Cristo crucificado atrás do altar suspirava decepcionado conosco, a biblioteca era o 3 segundo lugar mais sagrado da escola. Não que fôssemos proibidos de entrar - éramos estimulados a freqüentá-la - , contanto que tivéssemos boas intenções. Dona Jandira, a bibliotecária, foi explícita durante nossa primeira visita como pessoas alfabetizadas. Ali estava reunido o conhecimento da 6 humanidade. Podia ser usado para o bem ou para o mal. Isso dependia de cada um de nós e cabia a ela nos orientar nesse aspecto. Livros, ela nos alertou, são munição para o pensamento.
- Escolha-os bem.
9 Naquela época, o meu pensamento estava voltado para coisas do outro mundo. E, se eu bem conhecia aquela escola, o livro que eu procurava não teria passado por aqueles portões, quanto menos encontrado um lugar naquelas estantes. E, caso tivesse, dificilmente eu teria permissão de lê12 lo. Segui a bibliotecária e meus quatro colegas. As expedições pela biblioteca não podiam ultrapassar cinco alunos por vez: essa era uma medida irrevogável para garantir a ordem. Sendo aquele um ambiente de leitura e reflexão, estávamos proibidos de pronunciar qualquer tipo de palavra ou ruído. A 15 exceção para isso se dava somente quando estivéssemos ao balcão de empréstimo e devolução. Ali deveríamos nos dirigir oralmente para a bibliotecária a fim de informar o título e autor do livro que buscávamos. Caso não soubéssemos, poderíamos explicar, em voz baixa, o assunto. Como o meu 18 assunto era indizível, teria de me contentar com mais um Monteiro Lobato. Nada contra a turma do Sítio. Eu simpatizava com eles e vinha acompanhando suas peripécias há um bom tempo. Mas eu sabia que criatura alguma daquele universo chegaria aos pés do Minotauro, e este eu já tinha 21 decifrado.
Vagueava por um corredor da seção policial quando um título chamou meus olhos. Puxei o livro e senti as mãos trementes. Reli três vezes as palavras. "O Escaravelho do Diabo". Encolhida, folheei 24 aquilo. Assassinato, morto, inexplicável, pânico. Apertei o livro contra o peito, sem saber o que fazer. Minha única saída era devolver o livro ao seu lugar e fingir que não o tinha visto. Seria melhor para
mim. Jamais permitiriam que eu saísse dali com um livro como aquele. A existência daquele livro 27 confirmava minhas suspeitas. Abri-o novamente. O cartão colado na contracapa acusava uma lista iniciada em abril de 1979. Desde então, alunos vinham retirando aquele livro, um após o outro. Alunos que não estavam mais conosco, que já haviam saído do Dom Barreto e cujos destinos eu só podia 30 especular. Alunos que se foram para lugares indeterminados.
Seria muita ingenuidade acreditar no valor literário de tal obra, se é que tivesse algum. O nome da autora não me dizia coisa alguma. A professora de literatura era compulsiva quanto a isso e, se 33 aquela mulher tivesse alguma contribuição benéfica, já teria caído numa prova. Lúcia Machado de Almeida: uma incógnita, um pseudônimo - talvez. Um romance policial ambientado na cidade de Vista Alegre. Uma pacata cidade se encontra sob ataque de um inseto - era o que a tal Lúcia tinha a dizer 36 sobre o livro. Pois ela que me desculpasse, mas isso pouco importava. A questão aqui era muito maior. Dentre as centenas de livros daquela biblioteca, "O Escaravelho do Diabo" foi despretensiosamente inserido para quem quisesse ler. Irmã Lurdes estava a par daquilo e por algum 39 motivo queria que aquele livro chegasse às minhas mãos.
Caminhei com ele até o balcão de empréstimos e devoluções e, sem dizer palavra, o entreguei à Dona Jandira. Ela transpôs dados da minha ficha para o livro e vice-versa. A dura unha do seu 42 indicador bateu duas vezes na capa, precisamente sobre a palavra que ambas tínhamos em mente.
- Boa escolha - disse. E piscou.
Aquela era nossa última aula. O sinal das cinco da tarde tocou, mas Dona Jandira não se mexeu. 45 Percebi a biblioteca vazia e a porta de saída longe. Corri dali com o livro debaixo da camiseta.
Índigo girl indigogirl@uol.com.br
Disponível em < http://planeta.terra.com.br > Acesso em: 05 dez.2003.
Pluralizando-se o sujeito da oração "O nome da autora não me dizia coisa alguma" (linhas 32 e 33), obter-se-á, de acordo com o registro lingüístico padrão: