Nunca gostei da casca do pão
Nunca gostei da casca do pão. Sempre sinto um gosto
mais amargo e a textura não me agrada tanto como o miolo
molinho e quentinho de um pão caseiro quem recém saiu do
forno.
Essa minha rejeição das cascas começou ainda na infância.
Lembro bem quando tentava negacear e tirar a parte de cima,
mas minha mãe não costuma permitir. O pão com nata e chimia
vinha sempre acompanhado da casca.
A estratégia que eu adotava era começar comendo o que
eu menos gostava. Começava, justamente, pela borda superior
da fatia onde a massa do pão ficou em contato com o ar quente
do forno. Depois seguia com mordidas geométricas até finalizar
as quatro linhas. Restava então o que eu tinha interesse: o
miolo do pão.
Ao passar dos anos o pão também se transformou. Na
minha casa já não era tão habitual ter pão caseiro saindo do
forno dia sim, dia não. Aquele pão de forma industrializado
chegava na minha casa com a missão de alimentar um
adolescente que sempre tinha fome de sanduíche.
Mas a casca, dessa vez uniformemente ruim nas quatro
bordas da fatia, me fazia cortar as laterais antes de botar o
sanduba na torradeira. Demorou alguns anos até eu me dar
conta do baita desperdício que aquilo ali representava. Foi
coincidentemente bem quando passei a comprar meu próprio
pão. O bolso ensina tanto!
Adotei então outras estratégias: que tal tentar o
cacetinho? Aquela crocância da casca, para mim, é bem melhor
que o gosto amargo da casca de um pão caseiro. Mas o gosto
do miolo... Ah, nem se compara!
Foi quando eu, que gosto muito de cozinhar, entendi que
poderia usar as cascas do pão para fazer outras receitas. E nem
estou falando apenas da farinha de rosca, mas das várias
possibilidades que surgem com esses pedaços de pão que
depois de ainda mais tostados (dessa vez com um fio de azeite)
podem ser bem gostosos.
Tenho aproveitado tanto o miolo do pão com o recheio
que eu prefiro e com a parte que gosto verdadeiramente. O
restante não vira mais desperdício e nem é resquício da birra
de criança mimada ou de um adulto mal-educado.
Esses dias atrás ao comer uma dessas fatias de pão com
nata que eu tanto gosto, me dei conta de quantas coisas na
minha vida também eram ou ainda são cascas de pão.
Ache uma serventia para as suas “cascas de pão” e não
permita ter que engolir algo no seco por obrigação.
Autor: Marco Matos - GZH (adaptado).
Qual alternativa preenche, CORRETAMENTE, a lacuna?