A relação entre verdade e justiça
Gostaria de me deter um instante na relação verdade-justiça, porque, claro, é um dos temas fundamentais da filosofia ocidental. Afinal de contas, um dos pressupostos mais imediatos e mais radicais de todo discurso judiciário, político, crítico é o de que existe pertinência essencial entre o enunciado da verdade e a prática da justiça. Ora, acontece que, no ponto em que vêm encontrar-se a instituição destinada a administrar a justiça, de um lado, e as instituições qualificadas para enunciar a verdade, de outro, sendo mais breve, no ponto em que se encontram o tribunal e o cientista, onde se cruzam a instituição judiciária e o saber médico ou científico em geral, nesse ponto são formulados os enunciados que possuem o estatuto de discursos verdadeiros, que detêm efeitos judiciários consideráveis e que têm, no entanto, a curiosa propriedade de serem alheios a todas as regras, mesmo as mais elementares, de formação dos discursos científicos, de serem alheios também às regras do direito e de serem, no sentido estrito, grotescos.
Michel Foucault. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 14-15.
Com base no texto acima, extraído da obra Os Anormais, de Michel Foucault, julgue o item.
Ao afirmar que a verdade é enunciada no cruzamento entre a justiça e a ciência e que, no entanto, esse enunciado sobre o verdadeiro não se submete às próprias regras do discurso científico ou jurídico, o autor do texto aponta um paradoxo, como evidencia o emprego, entre outros elementos, do adjetivo “grotescos”.