TEXTO
Espalhou-se, é o caso, que nessa festa o jovem pernambucano pegou de namoro rijo com a menina Eulália, interessante e mimosa filha do Juiz de Direito, educada na capital.
A Margarida, quando lho disseram, chegou o beiço ao nariz, fumegou:
– Que está dizendo? Uma lambisgoia daquelas! O Juiz de Direito anda por toda parte, amostrando as duas bonecas... Pudera! Encontra um nenê como o Secundino... Menino há de gostar de vadiar com boneca...
– Menino de vinte e seis anos, Guidinha! – Exclamou o marido.
– Só vendo... A Eulália! Ora, senhores, a Senhora Dona Eulália!
– Que tem isso? Homem! Que quer você dizer? São as meninas mais aquele que há por estes sertões. Sabem vestir, sabem conversar, pronunciam bem o português, sabem pisar...
– Ora, bravos! Muito bem, Senhor Major! Sabem... Sabem... Não tem destões de dote cada uma! Umas retirantes!
O modo e o sentido insultuoso com que a mulher pronunciou a expressão retirante foram aviso ao Quim a que não prosseguisse. Ouvira algumas vezes essa palavra, à má parte, a ele dirigida por ser de outra província. A perversidade humana, implacável, cria dessas injustiças. Retirante se tornou por isso uma palavra maldita, como se a miséria casual por que uma vez na vida passou um indivíduo lhe impregnasse o moral do repelente aspecto da mulambeira e da magreza faminta. E, daí, retirante a qualquer que sendo de um lugar mudou para outro em tempo de seca. E daqui, ainda, quando se quer mesmo insultar a qualquer estranho.
Oliveira Paiva. Dona Guidinha do Poço. P. 65-6
Depreende-se do texto que