Leia o texto, para responder às questões de números 38 a 44.
Páginas da vida
A primeira palavra de que se tem conhecimento na literatura ocidental é “cólera”– originalmente escrita em grego como ménin. O termo abre a Ilíada, de Homero, autor que se acredita ter vivido na região da Jônia, atual Turquia, no século VIII a.C. Transmitido a princípio de maneira oral, o poema épico que fala da ira do guerreiro Aquiles na Guerra de Troia foi o pontapé inicial para uma história que é mãe de todas as outras: a origem do livro, recontada em detalhes no instigante O Infinito em um Junco, da filósofa e historiadora espanhola Irene Vallejo. “Os livros sobreviveram por milhares de anos porque foram capazes de se adaptar. Tivemos livros de papiro, pergaminho, papel, e agora temos também digitais”, explicou a autora em entrevista a VEJA.
Lançada no Brasil pela editora Intrínseca, a obra viaja à Antiguidade clássica para relatar como a invenção da escrita e o uso dessa tecnologia para registro histórico e literário moldaram o desenvolvimento da civilização tal e qual a conhecemos hoje. Inventada pelos sumérios há 6 000 anos, a escrita nasceu de símbolos complexos desenhados em placas de argila moldadas nas margens dos rios. Batizadas de tabuletas, essas peças foram o embrião do que seriam, posteriormente, os livros. Ironicamente, boa parte dos registros daquela época que restaram vem de peças submetidas ao fogo durante incêndios, já que o calor cozia a argila e tornava a escrita mais resistente aos efeitos do tempo.
Foi no Egito, porém, mais precisamente em Alexandria, que a história do livro se desenvolveu de maneira voraz, ganhando contornos quase lendários. Sob o comando do rei Ptolomeu, no século III a.C., o país se estabeleceu como o grande centro cultural do mundo antigo. Grande parte de tal fama se deveu a um plano mirabolante de seu governante: “Ele queria concentrar em um edifício todos os livros do mundo e disponibilizar essa sabedoria a qualquer mente curiosa”, explica Irene. A Biblioteca de Alexandria se tornaria a primeira a romper as barreiras das coleções particulares e ganhar status de pública; floresceu, tornando-se um símbolo do helenismo imaginado por Alexandre, o Grande, ao reunir obras das mais diversas culturas.
Ao longo da história, como se sabe, os livros não foram objeto só de amor, mas de ódio. Por diversas razões, autores e obras sofreram perseguições na Antiguidade e Idade Média. Livros foram vítimas de fogueiras, e a própria Biblioteca de Alexandria foi destruída três vezes, a última delas em 642. “A destruição atinge também as letras, porque nelas sobrevivem uma cultura e uma memória”, afirma Irene.
Com o advento do mundo digital, publica-se um novo título a cada meio minuto. É um volume impressionante: um leitor comum não consegue ler em toda a sua vida o que o mercado editorial produz em um único dia de trabalho. Nunca foi tão fácil e tão difícil acompanhar o avanço da civilização.
(Amanda Capuano. Veja, 08-06-2022. Adaptado)
Desenvolvendo o trabalho com o texto literário em sala de aula, o docente terá oportunidade, a partir das referências presentes no texto de Veja, de pôr em prática uma das recomendações de Mikhail Bakhtin (Estética da criação verbal), cuidando de