Cobra Norato
XXVIII
A floresta se avoluma
Movem-se espantalhos monstros
riscando sombras estranhas pelo chão
Árvores encapuzadas soltam fantasmas
com visagens do lá se vai
O luar amacia o mato sonolento
Lá adiante
o silêncio vai marchando com uma banda de música
Floresta ventríloqua brinca de cidade
Movem-se arbustos cúbicos
sob arcadas de samaúma
Palmeiras aneladas se abanam
Jaburus de monóculo namoram estrelas míopes
João Cutuca belisca árvores
Passa lá embaixo a escolta do Rei de Copas
Chegam de longe ruídos anônimos
O mato se acorda
Cipós fazem intrigas no alto dos galhos
Desatam-se em gargalhadinhas
Uma árvore telegrafou para outra:
psi psi psi
Desembarcam vozes de contrabando
Sapos soletram as leis da floresta
Lá em cima
um curió toca flauta
Estira-se o rio
O mato é um acompanhamento
Desfiam-se as distâncias
entre manchas de neblina
― Lá vai indo um navio, compadre!
Jaquirana-boia apita
Uma árvore abana adeus do alto de um galho
XXIX
― Escuta, compadre
O que se vê não é navio É a Cobra Grande
― Mas o casco de prata? As velas embojadas de vento?
Aquilo é a Cobra Grande
Quando começa a lua cheia ela aparece
Vem buscar moça que ainda não conheceu homem
A visagem vai se sumindo
pras bandas de Macapá
Neste silêncio de águas assustadas
parece que ainda ouço um soluço quebrando-se na noite
― Coitadinha da moça
Como será o nome dela?
Se eu pudesse ia assistir o casamento
― Casamento de Cobra Grande chama desgraça, compadre
Só se a gente arranjar mandinga de defunto
Ué! Então vamos
Lobisomem está de festa no cemitério
Raul Bopp. Cobra Norato. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, p. 44-9.
A respeito das relações semântico-sintáticas no poema Cobra Norato, de Raul Bopp, julgue (C ou E) o item subsequente.
No diálogo expresso nos versos de 43 a 46, entre as marcas da linguagem coloquial, inclui-se a regência do verbo chamar como verbo não pronominal, o que resulta em acepção diferente da que seria coerente com os sentidos produzidos.