Conversa telefônica
Clarice Lispector
Uma grande amiga minha se deu ao trabalho de ir anotando numa folha de papel o que eu lhe dizia numa conversa telefônica.
Deu-me depois a folha e eu me estranhei, reconhecendo-me ao mesmo tempo. Estava escrito: “Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas uma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar.
Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero.
Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro. Ou para uma desistência: levar uma vida mais humilde de espírito, ou então não sei em que ramo a desistência, não sei em que lugar encontrar a tarefa, a doçura, a coisa.
Estou viciada em viver nessa extrema intensidade.
A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto o maior desamparo.”
Disponível em: <www.revistaprosaversoearte.com>. Acesso em: 20 fev. 2021 .
TEXTO II
O que é elipse?
A elipse é uma figura de linguagem caracterizada pela omissão de um termo no enunciado; porém, esse termo pode ser subentendido pelo contexto. Por isso, embora o elemento esteja omitido, o contexto nos ajuda a perceber qual elemento é esse. Observe os exemplos a seguir:
• Ele fez isso e eu: “Você está louco? ”
• Chove muito e não podemos sair de casa agora.
• Iremos à festa sábado.
• Casa de ferreiro, espeto de pau.
• Lúcio andava hesitante, braços cruzados.
Entre as palavras destacadas, há um elemento omitido que foi subentendido pelo contexto: um verbo, o sujeito da oração ou uma preposição. O contexto ajuda de tal forma que a omissão pode passar despercebida.
• Ele fez isso e eu [perguntei]: “Você está louco? ”
• Chove muito e [nós] não podemos sair de casa agora.
• Iremos à festa [no] sábado.
• [Em] casa de ferreiro, [o] espeto [é] de pau.
• Lúcio andava hesitante, [com os] braços cruzados.
O nome elipse vem do grego eleípsis, que significa “omissão”, “falta”, “insuficiência”. Assim, a elipse é classificada como uma figura de construção ou figura de sintaxe, já que se trata da omissão de um termo no enunciado.
Elipse e zeugma
Não se deve confundir elipse e zeugma, duas figuras de linguagem caracterizadas pela omissão de termos linguísticos, mas com detalhes diferentes.
No caso da elipse, o termo omitido é depreendido pelo contexto, ou seja, não aparece em nenhum momento no enunciado, mas fica subentendido pelo contexto.
Quando ocorre zeugma, o termo omitido já apareceu antes no enunciado e, para evitar a repetição, omite-se tal elemento, criando uma equivalência semântica. Percebemos qual é o termo omitido porque a estrutura tende a ser a mesma da anterior. Isso ocorre para dar maior fluidez ao discurso.
Eu gosto de vôlei. A Renata, de futebol.
Note que o verbo “gostar” foi omitido, mas já havia sido citado anteriormente. Quando há zeugma, os sinais de pontuação (neste caso, a vírgula) marcam a omissão do termo.
Disponível em: <www.portugues.com.br>. Acesso em: 20 fev. 2021.
Releia o seguinte trecho do texto I.
“Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas uma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar”.
É correto afirmar que esse trecho exemplifica a omissão