A questão refere-se ao texto abaixo.
O Homem que decompôs a Bossa Nova
Por Vladimir Safatle
Havia aquilo que fazia da trajetória de João Gilberto algo profundamente singular. Pois poderíamos falar simplesmente de sua posição como um dos “criadores” da bossa-nova, certamente um dos momentos maiores da forma-canção brasileira. Seu hibridismo que articulava o centro e a periferia, a pulsação do samba e os trabalhos harmônicos que podiam ir do jazz até lembranças das harmonias não funcionais de Debussy era a forma musical própria a um país que se acreditava destinado a produzir novas conciliações em um ritmo no qual os conflitos acabavam por se dissolver em uma inesperada acomodação.
Estávamos no final dos anos cinquenta do século passado e as travas que pareciam impor ao país suas paralisias seculares enfim estavam presumidamente a ponto de se dissolver. Sim, havia algo de utopia naquela música e seria necessário ouvi-la escutando também a utopia do tempo histórico que ela expressa. Se, do ponto de vista arquitetônico, o Brasil mostrara sua carga utópica através da instauração geométrica da conquista de seu próprio interior, isso através de um sonho modernista que redundara em Brasília e suas misturas de árvores distorcidas do cerrado e curvas de concreto armado, havia a versão musical dessa carga utópica, e ela se encontrava na bossa-nova.
A fragilidade das vozes de seus cantores e cantoras, seus tons anasalados, tão característicos do canto de João Gilberto, tinham algo da ironia de quem parece vencer o intransponível através de um menor esforço. De quem venceria as clivagens do país um pouco no tom que encontramos em “Pra que discutir com madame”, ou seja, zombando dos limites que procuravam nos impor. Essa música só poderia mesmo vir de um país que, por um momento, parecia acreditar em sua capacidade de saltar por cima do atraso e de abraçar seu destino de espaço de hibridação contínua das formas.
Mas essa não foi a história do Brasil, e não haveria momento mais sintomático do falecimento de João Gilberto do que agora. É como se sua música ficasse como uma promessa não realizada que nos lembra de algo que queríamos, mas que não conseguimos ser. Só que há algo mais que impressiona em João Gilberto e isso pode nos ser precioso agora. Algo que nos lembra de movimentos raros, que só encontramos em verdadeiros atos de criação.
Toda criação traz em si mesma o princípio de sua própria decomposição. Mais do que o criador da bossa-nova, João Gilberto foi seu desconstrutor. Todo criador real luta contra as próprias formas que ele produz, cria falhas nos edifícios que levanta. Este João Gilberto desconstrutor é ainda mais impressionante do que o criador. Lembrem, por exemplo, de sua “versão” de "You do something to me", de Cole Porter. Raros foram os momentos em que a música popular conseguiu unir, de forma tão irônica, sutileza e anarquia. As marcações de ritmo estão “fora do tempo”, assim como o canto está em uma relação completamente anárquica com o tempo, atravessando, atrasando e acelerando. As síncopes abundam, pervertendo sistematicamente a lógica dos tempos forte e fraco. De certa forma, tudo está “fora do lugar” nessa versão, mas como se uma prova maior de inteligência consistisse em tirar as coisas do lugar e ainda permitir à forma produzir relações e “funcionar”.
Este João Gilberto era alguém que não podia se aquietar com as estruturas que ele mesmo criou, que parecia precisar complexificar cada vez mais o que tendia a se tornar, novamente, regular. Lembremos dele neste momento triste no qual um país vê ir embora um grande criador.
Texto adaptado. Disponível em: https://epoca.globo.com/
Considerando os aspectos relativos à regência verbal, assinale a alternativa que apresenta uma possibilidade de reescrita do trecho a seguir, de maneira correta, sem que haja prejuízo da correção gramatical:
“que nos lembra de algo que queríamos” .
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