Num país como o Brasil do século XIX, ser funcionário público era estar perto dos donos do poder, de maneira crescente à medida que se dava a subida na escala — tudo de modo mais distintivo do que hoje. Hoje o funcionário talvez domine melhor os canais de transmissão do comando; mas de maneira impessoal. Solto na massa da sociedade urbanizada e racionalizada, é alguém meio perdido que não se vê apontado, que não se destaca no panorama.
É mais preparado, tende a ser um técnico, mas vale menos diante da burguesia rica, mais vista, mais aninhada nas vantagens e benefícios do conforto que se compra. Dantes, a classe do meio era rala e composta em boa parte pelos próprios funcionários, cujos cargos, dos poucos regularmente pagos, permitiam situar o indivíduo num quadro definido da hierarquia social. Quando se pensa que as oligarquias dos municípios, por exemplo, brigavam até à morte para disporem de lugares como agente do correio, fiscal, professor primário, coletor, oficial de justiça, escrivão; quando se pensa que as oligarquias provinciais e depois estaduais reservavam ciosamente para si a indicação do pessoal das repartições e de lugares como delegado, coletor provincial ou geral; quando se pensa nisso é que se vê até que ponto a vida da nação girava em boa parte à volta do ser ou não ser funcionário.
Antonio Candido. Um funcionário da monarquia. Ensaio sobre o segundo
escalão. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2007, p. 15-6 (com adaptações).
Acerca das ideias e das estruturas linguísticas do texto acima, julgue o item que se seguem.
De acordo com as ideias do texto, o significado de “oligarquias” está relacionado à expressão “donos do poder”.