O respeito aos velhos
Na semana passada, li uma notícia que me chamou a atenção. As informações eram duas: os atropelamentos são a terceira principal causa de morte entre brasileiros de 5 a 14 anos de idade; e o risco de morrer atropelado sobe (para homens e mulheres) a partir dos 50 anos. Segundo a nota, envelhecer provoca patologias, como perda da visão e da capacidade auditiva, que diminuem a atenção aos alertas dados pelos motoristas, e perda da força muscular, que afeta a agilidade e dificulta a travessia de vias movimentadas.
Já comentei aqui que a cultura atual simplesmente eliminou as duas pontas da vida: a infância e a velhice. O que vale hoje é a juventude. Queiramos ou não, é preciso ser jovem de qualquer maneira.
Essa notícia, portanto, não faz mais do que confirmar o fato.(c) O trânsito, as vias públicas, o tempo dos semáforos, a faixa de pedestres, o comportamento dos motoristas e a configuração de ruas e calçadas não são próprios para crianças e velhos. Mas o que mais me impressionou foram as explicações para o risco de morte por atropelamento entre as pessoas com mais de 50 anos: é a própria velhice a responsável. Talvez o esperado seja que os cidadãos com mais de 50 anos respeitosamente se retirem do espaço público para que não provoquem o constrangimento de serem atropelados, não? Ou, então, que mantenham a agilidade e as funções como se fossem jovens.
Adequar as condições das vias pública para respeitar os velhos - e faço questão de dizer velho e não pessoas da terceira idade ou algo parecido justamente para marcar a dignidade que se deve a essa etapa da vida - não é algo a considerar.
Não é apenas na vida pública, entretanto, que vemos esse desdém com os velhos. O modo como a família contemporânea convive também expressa o mesmo. Para grande parte dos adultos, os avós são aqueles que "estragam" os netos e que tiram a autoridade dos pais.(d) As opiniões dos velhos a respeito das crianças, em geral cheias de bom senso, são consideradas ultrapassadas.
O que se espera dos avós é que eles façam o que os pais das crianças querem, não é? Que os substituam à sua imagem e semelhança. E o que significa tal expectativa senão desdenhar do que eles adquiriram com a experiência? Os adultos com filhos ainda conseguem reconhecer a relação que têm com seus próprios pais(b) e respeitar algumas das opiniões deles sobre as crianças.
Já quando a relação é de aliança, ou seja, quando o velho ocupa o lugar de sogra ou de sogro, não costuma ocorrer o mesmo. Em nome da popular dificuldade desse tipo de relação, os pais simplesmente não dão valor à contribuição que os avós poderiam dar. Na prática, isso resulta em grande diminuição do convívio entre crianças e velhos. Aqui é preciso um adendo: as crianças são colocadas, em geral, na relação com os avós no sentido utilitarista - quando os pais precisam que os avós cuidem de seus netos.(a)
Não se trata de convivência, e sim de trabalho. O fato é que, como não admitimos a velhice - porque isso significa reconhecer a proximidade da morte -, não sabemos conviver com os velhos e como tratá-los. E, se os adultos não sabem fazer isso, não conseguem ensinar aos mais novos o respeito à geração mais velha.
Uma sociedade que não é generosa nem respeitosa com os velhos, que equipara a primeira e a última etapas da vida à juventude, que não dá valor ao acúmulo de experiência, nada mais faz do que abolir o passado e o futuro e considerar apenas o tempo presente. Estamos, assim, armando uma cilada contra nós mesmos.
(SAYÃO, Rosely. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq3108200621.
htmhttps://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq3108200621.htm Acessado em 07/10/2021)
Assinale a alternativa na qual o elemento “que” desempenha a mesma função morfossintática que em “Já comentei aqui que a cultura atual simplesmente eliminou as duas pontas da vida: a infância e a velhice”: