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730788 Ano: 2008
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: INSS
Provas:

Como nasce uma história (fragmento)

Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar.

Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.

— Sétimo — pedi.

A porta se fechou e começamos a subir. Minha atenção se fixou num aviso que dizia:

É expressamente proibido os funcionários, no ato da subida, utilizarem os elevadores para

descerem.

Desde o meu tempo de ginásio sei que se trata de problema complicado, este do infinito

pessoal. Prevaleciam então duas regras mestras que deveriam ser rigorosamente obedecidas. Uma

afirmava que o sujeito, sendo o mesmo, impedia que o verbo se flexionasse. Da outra infelizmente já

não me lembrava.

Mas não foi o emprego pouco castiço do infinito pessoal que me intrigou no tal aviso: foi estar

ele concebido de maneira chocante aos delicados ouvidos de um escritor que se preza.

Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro, entenderia o que se pretende dizer neste

aviso. Pois um tijolo de burrice me baixou na compreensão, fazendo com que eu ficasse revirando a

frase na cabeça: descerem, no ato da subida? Que quer dizer isto? E buscava uma forma simples e

correta de formular a proibição:

É proibido subir para depois descer.

É proibido subir no elevador com intenção de descer.

É proibido ficar no elevador com intenção de descer, quando ele estiver subindo.

Se quiser descer, não tome o elevador que esteja subindo.

Mais simples ainda:

Se quiser descer, só tome o elevador que estiver descendo.

De tanta simplicidade, atingi a síntese perfeita do que Nelson Rodrigues chamava de óbvio

ululante, ou seja, a enunciação de algo que não quer dizer absolutamente nada:

Se quiser descer, não suba.

Fernando Sabino. A volta por cima. Rio de Janeiro: Record, 1995, p. 137-140 (com adaptações).



Acerca do gênero textual e das estruturas lingüísticas do texto acima, julgue os itens a seguir.
O gênero textual apresentado permite o emprego da linguagem coloquial, como ocorre, por exemplo, em "Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro" (L.13) e "um tijolo de burrice" (L.14).
 

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